amor além dos poemas de amor
(IX - Roupas no varal)
Quando meu avô morreu,
eu conhecia ser criança.
Mais nada!
Da janela vimos um silêncio
que só há nos editais da morte.
Chegou um carro preto.
Lembro que era bem carro
e bem preto!
Alongava-se em carro e cor
quanto mais olhando...
Surgia pra avisar...
Diziam ser Elias,
um rapaz que eu tinha medo!
Tanto ouvir a família falar.
Nosso quintal era que me lembro
mais largo que o imenso!
Eu estava assim de lado, avizinhado,
encostado ao muro sem saber participar.
O céu ventava roxo ameaçando chuva
e o quebranto dos telhados.
Assustado, vi mamãe correr
entre a primeira gota de chuva
e as lágrimas que não eram as últimas.
Ela vinha do anúncio
para o fundo do quintal, colher apressada,
nossa roupa no varal.
Cristiano Siqueira
(Foto de Flávio Damm)
amor além dos poemas de amor
(VIII - ai! esse tempo!)
esse tempo em que teus olhos não estão
no meu rosto
triste como o olhar de uma janela perdida pelo muro
dos vazios afundado
no que não há
significado.
esse tempo,
esse tempo,
esse tempo...
como bate um relógio
de sol contra o vento.
ai! esse tempo!
há tempos só me diz
do matiz da distância.
esse tempo não faz tempo,
mas é maior que a lembrança.
Cristiano Siqueira
(Foto de Christophe Agou)
Amor além dos poemas de amor
(VII - Estado de espírito)
Meu estado de espírito
não é uma coisa nem outra
Um elo de todas as coisas
com as folhas soltas
Dou três passos e paro
Olho para o céu e respiro
Sou mistura de fato marcado
Com a ilusão de um místico
Escoro meu ombro ao muro
Fecho o olho e delineio
O porquê de meu freio
E a velocidade dos mundos
Sou qualquer estado ilhado
Nem fora nem dentro de mim
Poeira cósmica ou um só cisco
Sou eu quem me assisto!
Cristiano Siqueira
(Foto de Trent Parke)
amor além dos poemas de amor
(VI - caminho sem ti)
caminho sem ti.
meu pensamento
lembra-se do seu.
quem será meu pensamento?
já te passastes por aqui
sem que não soubesses
caminhar sem mim?
não estou sozinho,
vem comigo a nudez do vento
que esteve entre nós naquele momento.
anda conosco
o que nos envolveu de corpo,
sol, sereno e janeiros
à sombra dos pessegueiros.
Cristiano Siqueira
(Foto de Narelle Autio)
amor além dos poemas de amor (V - 3 por 4)
alegro ma non troppo
haikais são
lançados
ao rio
da lira
que entorna
e amorna o amor.
fábulas
mitos da
vida nas
mãos percorridas:
dorso do alvor.
soltem-se
versos e
credos das
bocas aflitas de
deus indistintos
olhos de ator.
exú, com
platão de
cupido
dançando
quadrilha em
el salvador.
canta que
dança e que
canta que
canta e que
dança que
gira-e-não-
gira no en-
torno do sou.
nada tem mais unidade que a
falsa verdade da sábia
mentira de
ser quem eu sol.
Cristiano Siqueira
(Foto de Evgen Bavcar)
amor além dos poemas de amor (IV - fronteira)
a primeira coisa que fiz
foi pensar em nada.
talvez estive antes
do meu nascimento.
se fui sondado à vida
de vir, não lembro.
ou porque não soube,
ou soube vir a esmo.
Cristiano Siqueira
(Foto de Adrian Fisk)
amor além dos poemas de amor
(III- as ruínas da memória)
uma luz de penumbra
em seu rosto imparfeito,
fez branco e preto
minha quimera de runas.
as ruínas da memória
não são mais que a solidão
recordando sua presença.
a vaga de seus passos
– estáticos –
como quem vai embora,
mas não desvia a permanência.
Cristiano Siqueira
(Foto de Evgen Bavcar)
amor além dos poemas de amor (II - quase um nome)
só me interessa a sombra da curva,
este espaço deixado no vão
do espaço em que passo.
tal como pedra de sal
a naufragar um mar extinto
não sou mais que a sensação
de ter a morte um manto
em que se vai
ficando pra trás
ter o que não ter
quase um nome,
legado
dos lábios de meus pais.
Cristiano Siqueira
(Foto de Bevgen Bavcar)

Amor além dos poemas de amor (I - Gênesis)
Tomou feição de lágrima
no batismo da face.
Na medida que a alma fluía,
o corpo sublimava.
Ia beijar o pé das nuvens.
Quando viu
se viu
desiludido:
a criatura por si só sendo
criada?
Foi tomá-la pela mão.
Ao chegar precipitado
tombou um céu de altura.
O deslize do céu.
Desde então eles gravam
no busto da vida alguns de seus laços.
E há quem diga que o homem
vale de Deus na terra pra dar liga ao barro.
Cristiano Siqueira
Tomou feição de lágrima
no batismo da face.
Na medida que a alma fluía,
o corpo sublimava.
Ia beijar o pé das nuvens.
Quando viu
se viu
desiludido:
a criatura por si só sendo
criada?
Foi tomá-la pela mão.
Ao chegar precipitado
tombou um céu de altura.
O deslize do céu.
Desde então eles gravam
no busto da vida alguns de seus laços.
E há quem diga que o homem
vale de Deus na terra pra dar liga ao barro.
Cristiano Siqueira
(Foto de Nils Jorgensen)

amor à auto-biografia
cheguei por caminhos imprevisíveis,
acredito que lentamente
pra poder ficar:
ainda não cheguei
horas sou
que não sou
poeta: mas espero...
colho o aroma das flores
plantadas às margens
de um raio de sol
não penso pra poema,
deus também é minúsculo,
tenho as velas das rezas de minha mãe
acendidas sobre os ombros
quando delimito meu acaso
vem o etéreo e me dilui,
nos quintais de todo o espaço
dou minha mão para a outra
e atravesso ruas que não levam meu nome
se me sufoco giro em torno a mim,
não há como fugir:
ninguém ama mais nem menos do que o amor impõe.
cheguei por caminhos imprevisíveis,
acredito que lentamente
pra poder ficar:
ainda não cheguei
horas sou
que não sou
poeta: mas espero...
colho o aroma das flores
plantadas às margens
de um raio de sol
não penso pra poema,
deus também é minúsculo,
tenho as velas das rezas de minha mãe
acendidas sobre os ombros
quando delimito meu acaso
vem o etéreo e me dilui,
nos quintais de todo o espaço
dou minha mão para a outra
e atravesso ruas que não levam meu nome
se me sufoco giro em torno a mim,
não há como fugir:
ninguém ama mais nem menos do que o amor impõe.
Cristiano Siqueira
(Foto de Gil Prates)

amor e devaneio
por trás das árvores
à frente das grades
cai a cor do céu.
meu pensamento diante
de teu semblante
não está sozinho
quanto eu.
folhas de outono
ressecam meus passos.
ecoa em meu caminho
a última oxítona de teus lábios.
nos teus ouvidos,
os sussurros das palavras
que ousei não confessar.
por trás das árvores
à frente das grades
cai a cor do céu.
meu pensamento diante
de teu semblante
não está sozinho
quanto eu.
folhas de outono
ressecam meus passos.
ecoa em meu caminho
a última oxítona de teus lábios.
nos teus ouvidos,
os sussurros das palavras
que ousei não confessar.
Cristiano Siqueira
(Foto de Nils Jorgensen)

Amor no espelho
O espelho
De joelhos ao chão
Clamando por minha face!
Não me reconhece
E tampouco sabe:
Sou reflexão...
Tateia o concreto
Dos meus olhos,
Relega se interpreto
O abstrato do olhar
A vaidade e seus ditames.
Beleza e permanência.
Idade e nuance.
Afinal,
Sou eu quem se espelha
No vesgo espelho que me olha
e não me enxerga?
O espelho
De joelhos ao chão
Clamando por minha face!
Não me reconhece
E tampouco sabe:
Sou reflexão...
Tateia o concreto
Dos meus olhos,
Relega se interpreto
O abstrato do olhar
A vaidade e seus ditames.
Beleza e permanência.
Idade e nuance.
Afinal,
Sou eu quem se espelha
No vesgo espelho que me olha
e não me enxerga?
Cristiano Siqueira
(Foto de Renne Burri)

Amor urgente!
Anda logo com isso!
Antes que tudo passe
E não pudemos ter
Mais que um quase,
Menos que no amor
Adormecer...
Não seria meu verso
– ante teu labirinto –
A desenhar-me na face
Oferendas a você.
Tenha pena de mim...
Não porque sou poeta
Que alcanço nos poemas
O alívio de te amar
E de-fi-ni-ti-va-me-nte,
Voltar a viver!
Anda logo com isso!
Antes que tudo passe
E não pudemos ter
Mais que um quase,
Menos que no amor
Adormecer...
Não seria meu verso
– ante teu labirinto –
A desenhar-me na face
Oferendas a você.
Tenha pena de mim...
Não porque sou poeta
Que alcanço nos poemas
O alívio de te amar
E de-fi-ni-ti-va-me-nte,
Voltar a viver!
Cristiano Siqueira
(Foto de Jesse Marlow)

amor abismado!
em tudo,
não encontro
mais que a linha
de teu perfil.
o fio desse horizonte
entalha uma ponte
que liga os extremos
de meu precipício!
entre alísios e seios
teu lábio extático passeia
circundando meu corpo
num longínquo absorto.
hesito meu equilíbrio...
mas antes e sempre suplico:
quero despenhar
na imensidão de teu olhar...
em tudo,
não encontro
mais que a linha
de teu perfil.
o fio desse horizonte
entalha uma ponte
que liga os extremos
de meu precipício!
entre alísios e seios
teu lábio extático passeia
circundando meu corpo
num longínquo absorto.
hesito meu equilíbrio...
mas antes e sempre suplico:
quero despenhar
na imensidão de teu olhar...
Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)

Amor e volúpia
Meus olhos sôfregos
De belezas vagueiam difusos
Não encontram alívio.
Qualquer descrição
Meus olhos sôfregos
De belezas vagueiam difusos
Não encontram alívio.
Qualquer descrição
(Por mais metafísica seja)
Vai morrer descrição...
Não supre a ânsia do poeta à poesia!
A mais elevada das melodias
Não está à altura dessas mulheres.
Nem da astúcia de meus calafrios...
Repousa meu olhar
Perdido entre a apreciação
Etérea dos deuses,
E a fremente volúpia da carne.
Vai morrer descrição...
Não supre a ânsia do poeta à poesia!
A mais elevada das melodias
Não está à altura dessas mulheres.
Nem da astúcia de meus calafrios...
Repousa meu olhar
Perdido entre a apreciação
Etérea dos deuses,
E a fremente volúpia da carne.
Cristiano Siqueira
(Foto de Jesse Marlow)

amor solto
se eu me soltar,
só falarei de teus lábios
ou dos beijos que lhe dei
sem saber imaginado.
das vezes que morri
perdendo o ar
de tanto amar
teu hálito.
se eu me soltar,
não mais estarei envolto
ao que não quero
assumir.
teu semblante prende
preenche e seqüestra
meu arbítrio de ir e não ir
para longe ou perto de mim.
de não me soltar
e como um louco agir assim
é que tudo fica claro!
não curas meu olhar angustiado
mas com candura se sorris.
pois bem sabes que não me solto,
pra jamais desgarrar de ti!
se eu me soltar,
só falarei de teus lábios
ou dos beijos que lhe dei
sem saber imaginado.
das vezes que morri
perdendo o ar
de tanto amar
teu hálito.
se eu me soltar,
não mais estarei envolto
ao que não quero
assumir.
teu semblante prende
preenche e seqüestra
meu arbítrio de ir e não ir
para longe ou perto de mim.
de não me soltar
e como um louco agir assim
é que tudo fica claro!
não curas meu olhar angustiado
mas com candura se sorris.
pois bem sabes que não me solto,
pra jamais desgarrar de ti!
Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)

Amor e existência
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas eu já vi dois japoneses
Dançando tango,
Dois homens se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas um grego me contou da terra
Desejando Urano,
Dois deuses se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas eu vi Piaf cantando
Seu hino de amor por um boxeador.
Duas mãos se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas no poema de Augusto,
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas eu já vi dois japoneses
Dançando tango,
Dois homens se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas um grego me contou da terra
Desejando Urano,
Dois deuses se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas eu vi Piaf cantando
Seu hino de amor por um boxeador.
Duas mãos se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas no poema de Augusto,
um homem triste fez-se coveiro
e cuidava da morte da amada.
Dois anjos se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas a muçulmana prometida
Se casou e há anos ama a família.
Duas vidas se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas o que é isto a enlaçar
Pelos corações os nossos peitos?
Dois medos se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Se tens receio da nomenclatura
Chama então de outro nome!
Amas o que há pra se amar
E não sabe ser amor.
E aí?
Dois anjos se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas a muçulmana prometida
Se casou e há anos ama a família.
Duas vidas se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Mas o que é isto a enlaçar
Pelos corações os nossos peitos?
Dois medos se amando...
E aí?
Já ouvi dizer que o amor não existe.
Se tens receio da nomenclatura
Chama então de outro nome!
Amas o que há pra se amar
E não sabe ser amor.
E aí?
Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)

Amor e dualidade
O problema não é que nossos beijos
Não tenham se encontrado.
O problema, é como hei de saber
Com quais lábios meus beijos
O problema não é que nossos beijos
Não tenham se encontrado.
O problema, é como hei de saber
Com quais lábios meus beijos
Serão dados.
Se me dissestes de tua janela
Todo encanto que sentistes
E tal encanto não foi mais
Do que brisa sem manhã,
A quem confiarei meu copo d’água,
Meu suor envolto à lágrima,
Minhas vestes desnudadas
Se me dissestes de tua janela
Todo encanto que sentistes
E tal encanto não foi mais
Do que brisa sem manhã,
A quem confiarei meu copo d’água,
Meu suor envolto à lágrima,
Minhas vestes desnudadas
Depois do amor?
Espero o tempo
Espero o tempo
Em que não haja mais tempo.
Uma época
Uma época
Em que os relógios de areia,
As estações e o mistério dos versos
Sejam uma só coisa.
O momento em que nosso amor
O momento em que nosso amor
Alcançou consolo
Entre a pluralismo das almas,
E a dualidade dos corpos.
Cristiano Siqueira
Entre a pluralismo das almas,
E a dualidade dos corpos.
Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)

Amor inexato
Meu amor é maior que a glória
E menor ou igual ao pecado.
Meu amor é um intervalo,
Infinito.
Meu amor não é meu
Mas em mim está contido
E se pertence e se expande...
Me contém com seus ritos.
Meu amor é uma constante
Que eleva a alma das nuvens
Sobre o inferno de Dante.
Meu amor é tão grande
Quanto à glande de Deus!
Com as raízes no céu,
Meu amor está plantado
Tal qual as montanhas.
Meu amor se rega
Desenhando sobre a terra,
O vôo de suas ramas.
Meu amor é maior que a glória
E menor ou igual ao pecado.
Meu amor é um intervalo,
Infinito.
Meu amor não é meu
Mas em mim está contido
E se pertence e se expande...
Me contém com seus ritos.
Meu amor é uma constante
Que eleva a alma das nuvens
Sobre o inferno de Dante.
Meu amor é tão grande
Quanto à glande de Deus!
Com as raízes no céu,
Meu amor está plantado
Tal qual as montanhas.
Meu amor se rega
Desenhando sobre a terra,
O vôo de suas ramas.
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)

Amor aflito
Há um colapso por dentro.
Um corte pra sempre lento
Que menos dói na ferida
Do que no corpo inteiro.
Queria falar dos absurdos de amor,
Desejos menores ou esmorecidos,
Remorsos contidos,
Brigas evitadas por saudade.
Não consigo.
Queria amar
Mas só me aflijo.
Ai!
Até a dor
Se condói do que eu sinto!
Há um colapso por dentro.
Um corte pra sempre lento
Que menos dói na ferida
Do que no corpo inteiro.
Queria falar dos absurdos de amor,
Desejos menores ou esmorecidos,
Remorsos contidos,
Brigas evitadas por saudade.
Não consigo.
Queria amar
Mas só me aflijo.
Ai!
Até a dor
Se condói do que eu sinto!
Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)

amor e espera
evito de olhar as suas fotos
que é para a saudade
não me matar.
a pergunta
cujo eco da resposta
é a própria pergunta,
ocupa seu lugar...
Onde você está?
Onde você está?
e eu espero... espero...
espero desde quando
descobriram a história.
espero a vida toda,
o dia em que você chegar agora!
Cristiano Siqueira
evito de olhar as suas fotos
que é para a saudade
não me matar.
a pergunta
cujo eco da resposta
é a própria pergunta,
ocupa seu lugar...
Onde você está?
Onde você está?
e eu espero... espero...
espero desde quando
descobriram a história.
espero a vida toda,
o dia em que você chegar agora!
Cristiano Siqueira
(Foto de Nils Jorgensen)

amor durante
depois de te amar
par virou ímpar
ímpar ganhou par
e tudo trocou de lugar.
partiram-se os rostos,
corações cheios de dedos,
desejos num só corpo
unindo dois corpos no ar.
depois de te amar
exato este instante
e até mesmo antes
do que é impossível,
...voltar!
depois de te amar
par virou ímpar
ímpar ganhou par
e tudo trocou de lugar.
partiram-se os rostos,
corações cheios de dedos,
desejos num só corpo
unindo dois corpos no ar.
depois de te amar
exato este instante
e até mesmo antes
do que é impossível,
...voltar!
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)

amor e técnica
não sei
se é
bom
ou
ruim
o que escrevo.
tanto
não sei
se é
bom
ou
ruim
ser
eu mesmo.
minha escrita
não procura
por palavra serta
nem percebe
no verso
qualquer
a-r-r-i-t-m-i-a.
meu verso
é sina
e me percorre
nas veias
o sinuoso da vida...
...............................
Cristiano Siqueira
não sei
se é
bom
ou
ruim
o que escrevo.
tanto
não sei
se é
bom
ou
ruim
ser
eu mesmo.
minha escrita
não procura
por palavra serta
nem percebe
no verso
qualquer
a-r-r-i-t-m-i-a.
meu verso
é sina
e me percorre
nas veias
o sinuoso da vida...
...............................
Cristiano Siqueira
(Foto-montagem de Trent Parke)

Amor e insistência
Não chegaram notícias do seu dia
E nenhuma mensagem soprou
Nos meus ouvidos os sentidos
De sua direção,
Pensei em desistir...
Ontem quando disse:
– O destino quer assim...
Esqueceu de me dizer
Que o destino é você.
Fiz menção de distância...
Ao menos ou talvez,
Pra proteger.
Mas novamente
Só pensei em desistir...
Já que neste mundo não há
Algo que cumpra, vez por todas
Minha desistência de te querer,
Melhor amar essa coisa
Que por mais que me doa,
Não desiste de você...
Não chegaram notícias do seu dia
E nenhuma mensagem soprou
Nos meus ouvidos os sentidos
De sua direção,
Pensei em desistir...
Ontem quando disse:
– O destino quer assim...
Esqueceu de me dizer
Que o destino é você.
Fiz menção de distância...
Ao menos ou talvez,
Pra proteger.
Mas novamente
Só pensei em desistir...
Já que neste mundo não há
Algo que cumpra, vez por todas
Minha desistência de te querer,
Melhor amar essa coisa
Que por mais que me doa,
Não desiste de você...
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Catier-Bresson)

Amor e mudança
Não haverá mais dor
À dor que tenho
Que me cause mais sofrimento.
Estou triste, é inegável.
Não me arranjo de outro jeito
Para escrever o que escrevo.
Ou me dou por assim
Ou não me reinvento.
Mas há um pássaro cantando
Pelas folhas das manhãs de minha tarde
E um alívio cortando o céu para dentro
Não haverá mais dor
À dor que tenho
Que me cause mais sofrimento.
Estou triste, é inegável.
Não me arranjo de outro jeito
Para escrever o que escrevo.
Ou me dou por assim
Ou não me reinvento.
Mas há um pássaro cantando
Pelas folhas das manhãs de minha tarde
E um alívio cortando o céu para dentro
De meu peito.
Como se fosse passado e futuro
Me presenteando
Como se fosse passado e futuro
Me presenteando
Com ensaios de esperança
E realização.
Como se fosse ânsia, estrela, cisco
E tudo quanto mais do amor
Vindo, vindo, vindo...
Me substituindo,
Para ser quem sou.
Cristiano Siqueira
Como se fosse ânsia, estrela, cisco
E tudo quanto mais do amor
Vindo, vindo, vindo...
Me substituindo,
Para ser quem sou.
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)

Amor escrito
Escrevo sobre amor
Porque não sei amar...
Soubesse não escreveria
Não teria mérito,
Em amar!
Escrevo por amor
E de mais querer amar
Tornei-me escritor.
Por vezes desanimo,
Ira sinto da poesia
Minha.
Cansam-se as rimas...
Tudo se fecha
E me testa a busca
De uma nova escrita!
Mudar-se e permanecer
O mesmo.
Movem-se os versos
E os poemas décor
Tudo gira e nada muda
A inércia do amor!
Cristiano Siqueira
Escrevo sobre amor
Porque não sei amar...
Soubesse não escreveria
Não teria mérito,
Em amar!
Escrevo por amor
E de mais querer amar
Tornei-me escritor.
Por vezes desanimo,
Ira sinto da poesia
Minha.
Cansam-se as rimas...
Tudo se fecha
E me testa a busca
De uma nova escrita!
Mudar-se e permanecer
O mesmo.
Movem-se os versos
E os poemas décor
Tudo gira e nada muda
A inércia do amor!
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)

Amor e dúvida?
Tudo fará sentido
no momento em que estamos
entre impressões que sempre tivemos.
Depois o sentido será a dúvida.
Desde quando nos amamos?
Busquei as palavras certas,
mas elas não tinham seu próprio lugar:
eram nômades que iam de mar em mar.
Será que não podemos ter
entre meu beijo e o teu,
- bem de frente -
Tudo fará sentido
no momento em que estamos
entre impressões que sempre tivemos.
Depois o sentido será a dúvida.
Desde quando nos amamos?
Busquei as palavras certas,
mas elas não tinham seu próprio lugar:
eram nômades que iam de mar em mar.
Será que não podemos ter
entre meu beijo e o teu,
- bem de frente -
algo que seja
somente elementar?
Cristiano Siqueira
somente elementar?
Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)

Amor fazendo drama
Fico imaginando...
se eu que te amo
Fico imaginando...
se eu que te amo
já esqueci,
imagine você: nem sequer gostou de mim.
Não que eu a tenha esquecido
imagine você: nem sequer gostou de mim.
Não que eu a tenha esquecido
exatamente como quem sabe o valor da incógnita,
mas como um lento desanuvio...
Diria que te amo esquecidamente.
Com um desdém adequado aos dias que passam
mas como um lento desanuvio...
Diria que te amo esquecidamente.
Com um desdém adequado aos dias que passam
e me fazem passageiro.
Teu rosto sempre nublou-se na lembrança.
Tudo por minha proteção inconsciente:
hora por suportar a saudade
hora pra gestar tua ausência.
Ainda hoje tracei uma reta
como sobrevoasse a cidade.
Teu rosto sempre nublou-se na lembrança.
Tudo por minha proteção inconsciente:
hora por suportar a saudade
hora pra gestar tua ausência.
Ainda hoje tracei uma reta
como sobrevoasse a cidade.
Eu numa extremidade
e você extremada,
sem eu saber onde...
Nosso passado,
Nosso passado,
que só eu trouxe de nossa estória,
é comigo insistente.
Nem venho a pensar nele
E ele por conta própria vem presente.
Mas o porquê não sei estar envolto neste drama!
Te amo e já esqueci.
Nem venho a pensar nele
E ele por conta própria vem presente.
Mas o porquê não sei estar envolto neste drama!
Te amo e já esqueci.
E você,
Você, ora!
.........................
Você nem gostou de mim...
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)

amor aos que me leram errado
quero cantar meu louvor
aos que me deram sua leitura
nos descaminhos
de minha literatura.
aos motivos
de quem me leu
sem ser eu,
compreendido...
aos que têm pena,
me querem pra consolo
e absolvem meus poemas.
aos que disseram ser meus versos,
quero cantar meu louvor
aos que me deram sua leitura
nos descaminhos
de minha literatura.
aos motivos
de quem me leu
sem ser eu,
compreendido...
aos que têm pena,
me querem pra consolo
e absolvem meus poemas.
aos que disseram ser meus versos,
repletos de melancolia
e de sempre haver em mim um amor desencontrado...
canto meu amor com dor de pássaro
de olhos furados.
anseio meu vôo
aos que me leram errado!
aos que pensaram
que amei mais meus lamentos
do que o ser amado,
louvei mais as dores
e dei flores
ao amor mal alcançado.
aos que viram em si
o que julgaram de mim,
eu lhes digo:
pra quem ama demais
há sempre amor
não correspondido.
Cristiano Siqueira
e de sempre haver em mim um amor desencontrado...
canto meu amor com dor de pássaro
de olhos furados.
anseio meu vôo
aos que me leram errado!
aos que pensaram
que amei mais meus lamentos
do que o ser amado,
louvei mais as dores
e dei flores
ao amor mal alcançado.
aos que viram em si
o que julgaram de mim,
eu lhes digo:
pra quem ama demais
há sempre amor
não correspondido.
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)

amor indiferente
quanta bobagem
às margens de ti
falei...
quanta ventura
apartado de ti
desperdicei...
houve o passeio
do desfecho:
nem distância
nem beijo...
chegamos ao nada,
não sou teu amigo
não és minha amada...
o tempo passa
e a dúvida má
nos descontenta...
por que será
que o destino
fez de nós
indiferença?
Cristiano Siqueira
quanta bobagem
às margens de ti
falei...
quanta ventura
apartado de ti
desperdicei...
houve o passeio
do desfecho:
nem distância
nem beijo...
chegamos ao nada,
não sou teu amigo
não és minha amada...
o tempo passa
e a dúvida má
nos descontenta...
por que será
que o destino
fez de nós
indiferença?
Cristiano Siqueira
(Foto de Melanie Einzig)

amor e aceitação
mulheres que se sentem
feias
mudam de corpos
para serem aceitas
outras, bonitas
têm medo de não
sê-las...
homens que se sentem
fracos
movem seus músculos
para serem mais másculos
os fortes, coitados
não sabem quanto esforço
é necessário...
é engraçado o amor...
gira o mundo
muda tudo
e ele permanece:
intacto!
Cristiano Siqueira
mulheres que se sentem
feias
mudam de corpos
para serem aceitas
outras, bonitas
têm medo de não
sê-las...
homens que se sentem
fracos
movem seus músculos
para serem mais másculos
os fortes, coitados
não sabem quanto esforço
é necessário...
é engraçado o amor...
gira o mundo
muda tudo
e ele permanece:
intacto!
Cristiano Siqueira
(Foto de André Arruda)

amor e sexo
encosta
teu amor
meu peito
tuas costas
encosto
rosto a rosto
meus mares
tuas encostas
nossos lares
camas postas!
encosta
e com força
me mostra
me destroça
me remonta
pra que eu possa
me dar conta
deste encosto.
teu gosto
ao gosto meu
meu gozo
tua resposta
encosta
ira e calma
me aposse
de tua alma
se vira
calma e ira
me faz logo
essas propostas!
encosta
teu amor
meu peito
tuas costas
encosto
rosto a rosto
meus mares
tuas encostas
nossos lares
camas postas!
encosta
e com força
me mostra
me destroça
me remonta
pra que eu possa
me dar conta
deste encosto.
teu gosto
ao gosto meu
meu gozo
tua resposta
encosta
ira e calma
me aposse
de tua alma
se vira
calma e ira
me faz logo
essas propostas!
Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)

amor suspenso
do semblante de teu pai
amor de tua mãe
união de tua família
palavras de tua filha
de tudo que dizias
grafia de tua história
teu grito e tua mímica
teus nortes, teu sul
do alcance de teu dia
impressões e déjà-vu
perfumes, pudor e química
promessas e cigarros
de teus acidentes e fardos
planos e contratos
inquietações e teatro
xacras e espasmos
de tua menina precoce
tensões pré-menstruais
desatenção e enfoque,
(parece que pra sempre...)
eu não soube mais...
do semblante de teu pai
amor de tua mãe
união de tua família
palavras de tua filha
de tudo que dizias
grafia de tua história
teu grito e tua mímica
teus nortes, teu sul
do alcance de teu dia
impressões e déjà-vu
perfumes, pudor e química
promessas e cigarros
de teus acidentes e fardos
planos e contratos
inquietações e teatro
xacras e espasmos
de tua menina precoce
tensões pré-menstruais
desatenção e enfoque,
(parece que pra sempre...)
eu não soube mais...
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)

amor às cores
(ao estojo dos meus sonhos:
(ao estojo dos meus sonhos:
o de trinta e seis cores...)
lá na minha infância eu pensava:
quem tem olhos azuis avista azul!
quem tem olhos verdes avista verde!
e eu, olhando de castanho,
não via graça... sofria por talvez
ter meu mundo sem tamanho...
como eram bonitos aqueles olhos
lá na minha infância eu pensava:
quem tem olhos azuis avista azul!
quem tem olhos verdes avista verde!
e eu, olhando de castanho,
não via graça... sofria por talvez
ter meu mundo sem tamanho...
como eram bonitos aqueles olhos
com cores de bolas de gude!
como eu queria tê-los...
assim,
iludi-me de mim mesmo.
enxerguei com outros olhos,
e colori os meus anseios.
Cristiano Siqueira
como eu queria tê-los...
assim,
iludi-me de mim mesmo.
enxerguei com outros olhos,
e colori os meus anseios.
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)

amor passado
passou...
como brisa sem alento
um vento sem destino
sem menção de voltar
antes de seguir
decidido.
em seu peito de horizonte
nas suspensas costas do ar,
passou...
seu caminho sem caminho
seu caminho: seu andar
ah! meu amor...
não se aparte de mim!
pois que tua passagem
não nos diz que acabou...
Cristiano Siqueira
passou...
como brisa sem alento
um vento sem destino
sem menção de voltar
antes de seguir
decidido.
em seu peito de horizonte
nas suspensas costas do ar,
passou...
seu caminho sem caminho
seu caminho: seu andar
ah! meu amor...
não se aparte de mim!
pois que tua passagem
não nos diz que acabou...
Cristiano Siqueira
(Foto de Henri Cartier-Bresson)
amor à palavra
entortei palavra
por amor coubesse
no ouvido
queria a forma
dum tímpano
com tons entristecidos
procurei sua orelha
nas orelhas dos livros,
explicar não pude
o que eu sentia...
fiz partitura em poesia
mas num cabia
o arranjo das dores
entre as linhas!
e ouve de mim
meu ser calado,
cansado não ter dito
o inalcançável.
Cristiano Siqueira
(Foto de Ivana Andrade)

amor e aniversário
hoje é teu aniversário,
amanhã também...
façamos um pacto:
durante o ano
te dou parabéns,
agora me calo.
serão 364 felizes aniversários
e um dia de silêncio.
mas por que não te daria
logo em um de teus dias
palavras com abraço?
hoje, repousa minha língua
pra lhe beijar a poesia...
ó minha amante,
tu me renasces
a todo instante!
Cristiano Siqueira
hoje é teu aniversário,
amanhã também...
façamos um pacto:
durante o ano
te dou parabéns,
agora me calo.
serão 364 felizes aniversários
e um dia de silêncio.
mas por que não te daria
logo em um de teus dias
palavras com abraço?
hoje, repousa minha língua
pra lhe beijar a poesia...
ó minha amante,
tu me renasces
a todo instante!
Cristiano Siqueira
(Foto de Amani Willett)

Amor partido
Beijemo-nos enquanto não é tarde!
Enquanto tu não partes
E só fique a latência
Desta ardente vontade.
Beijemo-nos tristes e solitários
De ver acontecida
A trajetória que insiste
Em nos levar à despedida.
Beijemo-nos com medo
Do ledo engano
Da esperança...
Beijemo-nos! porque não há como
O amor ser o que não é
E nós, o contrário do que somos.
Cristiano Siqueira
Beijemo-nos enquanto não é tarde!
Enquanto tu não partes
E só fique a latência
Desta ardente vontade.
Beijemo-nos tristes e solitários
De ver acontecida
A trajetória que insiste
Em nos levar à despedida.
Beijemo-nos com medo
Do ledo engano
Da esperança...
Beijemo-nos! porque não há como
O amor ser o que não é
E nós, o contrário do que somos.
Cristiano Siqueira
(Foto de Christophe Agou)

Amor no par ou ímpar
– eu te amo!
– eu amo mais!
– eu que amo.
– e eu e eu e eu...
– par.
– ímpar.
– num vale roubar hem?
– vale sim que por amor vale tudo.
– tão tá, mas descaradamente então!
– um dó lá si e..................já!
– par! eu amo mais tá vendo?!
– será?!
– vamos de novo?
– vou nada! tô triste...
– vai! de novo amor, de novo...
– não!
– porquê!?
– cê nem taí d’eu te amar menos...
Cristiano Siqueira
– eu te amo!
– eu amo mais!
– eu que amo.
– e eu e eu e eu...
– par.
– ímpar.
– num vale roubar hem?
– vale sim que por amor vale tudo.
– tão tá, mas descaradamente então!
– um dó lá si e..................já!
– par! eu amo mais tá vendo?!
– será?!
– vamos de novo?
– vou nada! tô triste...
– vai! de novo amor, de novo...
– não!
– porquê!?
– cê nem taí d’eu te amar menos...
Cristiano Siqueira
(Foto de Christophe Agou)

Amor e adeus...
Adeus...
Não me despeço de ti,
Mas do que sinto por ti.
Adeus...
Algo de mim comigo mesmo:
Despedida do que eu era
E ainda faz com que eu seja,
Diferente...
Adeus...
Talvez tu nem saibas
Que estou indo embora.
Nem percebestes
Minha chegada,
Por certo não era
Eu quem chegava.
Adeus...
Não há culpas,
São quase mágoas
Que eu não deixei
Acontecer.
Adeus...
Mas te levo junto
A partir de mim.
Adeus...
De tudo ou nada,
Não sou mais
Aquela estrada
Abandonada...
Cristiano Siqueira
Adeus...
Não me despeço de ti,
Mas do que sinto por ti.
Adeus...
Algo de mim comigo mesmo:
Despedida do que eu era
E ainda faz com que eu seja,
Diferente...
Adeus...
Talvez tu nem saibas
Que estou indo embora.
Nem percebestes
Minha chegada,
Por certo não era
Eu quem chegava.
Adeus...
Não há culpas,
São quase mágoas
Que eu não deixei
Acontecer.
Adeus...
Mas te levo junto
A partir de mim.
Adeus...
De tudo ou nada,
Não sou mais
Aquela estrada
Abandonada...
Cristiano Siqueira
(Foto de Martine Franck)

Amor e arredores
Ao norte,
Um pássaro branco
Rufla o azul
Substantivo dos céus...
Ao sul,
Pássaros negros
Planam a morte
Diluída ao chão...
A leste,
Um murmúrio reflete
O abraço dos mares
Nos rios...
A oeste,
Cactus secos
Gemem de sede
Os solos agrestes...
Ao centro,
O amor e seu cetro
Giram meus olhos
E trazem tudo pra perto...
Cristiano Siqueira
Ao norte,
Um pássaro branco
Rufla o azul
Substantivo dos céus...
Ao sul,
Pássaros negros
Planam a morte
Diluída ao chão...
A leste,
Um murmúrio reflete
O abraço dos mares
Nos rios...
A oeste,
Cactus secos
Gemem de sede
Os solos agrestes...
Ao centro,
O amor e seu cetro
Giram meus olhos
E trazem tudo pra perto...
Cristiano Siqueira
(Foto de Christophe Agou)

Amor em lua-de-mel
Borboletas alçam vôo de teus dedos
E vem pousar nos meus olhos.
Brincam teus brincos com o brilho
Das tardes revoadas de sol.
Já o mar vem te despir
Pra sentir a fragrância de ti.
Pisca a estrela que habita
Os céus de teu lábio superior.
Teu ventre acolhe a semente da noite
Na luz de meus dias que se dão por amor...
Cristiano Siqueira
Borboletas alçam vôo de teus dedos
E vem pousar nos meus olhos.
Brincam teus brincos com o brilho
Das tardes revoadas de sol.
Já o mar vem te despir
Pra sentir a fragrância de ti.
Pisca a estrela que habita
Os céus de teu lábio superior.
Teu ventre acolhe a semente da noite
Na luz de meus dias que se dão por amor...
Cristiano Siqueira
(Foto de Joel Meyerowitz)

amor e abandono
desde que tu chegaste
e depois partiste, enxergo
diferente...
no entreato de tua permanência
colhi metáforas na madrugada
da qual sonhava durante o dia
noites extensões da noite
em que eu te conhecia...
pudera saber deste meu músculo
que pulsa venoso ao peito
minúsculo, nem mais um coração!
na inércia de todas as dúvidas
ou se te procuro nos olhos
inquietos de quando fujo,
o silêncio compreende tua boca
mas não consegue calar a minha...
Cristiano Siqueira
desde que tu chegaste
e depois partiste, enxergo
diferente...
no entreato de tua permanência
colhi metáforas na madrugada
da qual sonhava durante o dia
noites extensões da noite
em que eu te conhecia...
pudera saber deste meu músculo
que pulsa venoso ao peito
minúsculo, nem mais um coração!
na inércia de todas as dúvidas
ou se te procuro nos olhos
inquietos de quando fujo,
o silêncio compreende tua boca
mas não consegue calar a minha...
Cristiano Siqueira
(Foto de Blake Andrews)

amor e tranqüilizantes
(Que o amor me cresça... minha poesia é quase a metade do caminho. Quero chegar ao ponto em que tudo que eu fizer, transcenda. Mas Deus, também isso, me traz receios...)
minhas pernas
não param
quietas.
estão as caixas
dos remédios
tomadas!
como eu precisava...
dos tranqüilizantes
no meu sangue derretidos,
guardei gratidão
do álcool
não me lembro
não me lembro
perdão...
suportei o quanto pude!
que eu entenda
o amor
que de ti,
a mim
não vem,
não vai
nem surge!
Cristiano Siqueira
(Que o amor me cresça... minha poesia é quase a metade do caminho. Quero chegar ao ponto em que tudo que eu fizer, transcenda. Mas Deus, também isso, me traz receios...)
minhas pernas
não param
quietas.
estão as caixas
dos remédios
tomadas!
como eu precisava...
dos tranqüilizantes
no meu sangue derretidos,
guardei gratidão
do álcool
não me lembro
não me lembro
perdão...
suportei o quanto pude!
que eu entenda
o amor
que de ti,
a mim
não vem,
não vai
nem surge!
Cristiano Siqueira
(Foto de Trent Parke)

amor amor
há o amor que não se diz
nem demonstra. fatal!
amor que nos remonta
à criação das quintessências.
há o amor além das mãos
entrelaçadas. nos espaços.
amor entre os corpos
e os corpos esse vácuo.
há o amor a nos unir
as línguas. delícias:
amor que se excita
em querer nos ver amar!
há o amor reinventando
nosso cotidiano. casual.
amor que nos despe no ar
e tua nudez na minha, veste.
há o amor que não começa
nem termina. permanece.
amor que sempre existiu,
mas vem nascendo devagar...
Cristiano Siqueira
há o amor que não se diz
nem demonstra. fatal!
amor que nos remonta
à criação das quintessências.
há o amor além das mãos
entrelaçadas. nos espaços.
amor entre os corpos
e os corpos esse vácuo.
há o amor a nos unir
as línguas. delícias:
amor que se excita
em querer nos ver amar!
há o amor reinventando
nosso cotidiano. casual.
amor que nos despe no ar
e tua nudez na minha, veste.
há o amor que não começa
nem termina. permanece.
amor que sempre existiu,
mas vem nascendo devagar...
Cristiano Siqueira
(Foto de David Gibson)

amor e sofrimento
não apazigua essa angústia
contígua que me acompanha
pelo lado de dentro, às vezes
penso: essa dor é minha amiga!
não pode ser tão ruim o sofrimento
se por si só sofrer dói tanto!
o que significaria este tormento de vida
não tornando poesia nosso espanto?
não apazigua essa angústia
contígua que me acompanha
pelo lado de dentro, às vezes
penso: essa dor é minha amiga!
não pode ser tão ruim o sofrimento
se por si só sofrer dói tanto!
o que significaria este tormento de vida
não tornando poesia nosso espanto?
Cristiano Siqueira
(Foto de Maurício Lima)

Amor e travessia
Quando eu sinto,
Não sei se o que sinto
É blefe ou verdade.
Ser sincero não posso
Se meu próprio sentimento
Pode se enganar.
Quando eu não sinto,
Sinto o que não sinto
E essa ausência de sentir
É minha essência de amar.
Vazio ou preenchido,
Não importa.
Sou porta que se abre
Pro amor passar...
Cristiano Siqueira
Quando eu sinto,
Não sei se o que sinto
É blefe ou verdade.
Ser sincero não posso
Se meu próprio sentimento
Pode se enganar.
Quando eu não sinto,
Sinto o que não sinto
E essa ausência de sentir
É minha essência de amar.
Vazio ou preenchido,
Não importa.
Sou porta que se abre
Pro amor passar...
Cristiano Siqueira
(Foto de Agnaldo Ramos)

Amor à poesia
Eu queria um poema
Fora da face do papel
Que por si só declamasse
Nos princípios do azul
As pupilas de Deus
Eu queria um poema
Como o vagar dos cisnes
E a solidão das garças
Que por si só esculpisse
Nas páginas dos livros
O esplendor das alvoradas
Eu queria um poema
Que menos se precisasse
Ser sacro ou infame
Um poema que por si só
Do diadema das abóbadas
Viesse ser meu origami
Eu queria um poema...
Fosse ele próprio
Toda matéria e sinergia
Da intangível poesia
Eu queria um poema...
Da poesia que se algum dia
Esteve adormecida,
Foi pra ninar a vida!
Eu queria um poema
Fora da face do papel
Que por si só declamasse
Nos princípios do azul
As pupilas de Deus
Eu queria um poema
Como o vagar dos cisnes
E a solidão das garças
Que por si só esculpisse
Nas páginas dos livros
O esplendor das alvoradas
Eu queria um poema
Que menos se precisasse
Ser sacro ou infame
Um poema que por si só
Do diadema das abóbadas
Viesse ser meu origami
Eu queria um poema...
Fosse ele próprio
Toda matéria e sinergia
Da intangível poesia
Eu queria um poema...
Da poesia que se algum dia
Esteve adormecida,
Foi pra ninar a vida!
Cristiano Siqueira
(Foto de Trent Parke)

amor e abraço
(no pretexto de um tropeço, a delícia de um abraço...)
amor... aqui estou...
a mim, trazem meus braços
pra lhe dar abraço longo
respirando apaixonado
por cima de teus ombros!
nada há com mais carinho
do que o seio de um abraço!
são os sulcos de dois corações
vizinhos
querendo trocar de peito,
revezar pulsos e impulsos
pra bater lado a lado...
Cristiano Siqueira
(no pretexto de um tropeço, a delícia de um abraço...)
amor... aqui estou...
a mim, trazem meus braços
pra lhe dar abraço longo
respirando apaixonado
por cima de teus ombros!
nada há com mais carinho
do que o seio de um abraço!
são os sulcos de dois corações
vizinhos
querendo trocar de peito,
revezar pulsos e impulsos
pra bater lado a lado...
Cristiano Siqueira
(Foto de Christophe Agou)

amor e paixão
este amor,
de quê foi feito?
sumiram suas premissas,
razões de enleio
sobraram saudades
de um começo.
nem tanto
somos vítimas
tampouco realidade
sonhamos com receio
e o fruto do receio
atingiu maioridade.
ó! tu foste tão bela!
agora ainda
este amor,
de quê foi feito?
sumiram suas premissas,
razões de enleio
sobraram saudades
de um começo.
nem tanto
somos vítimas
tampouco realidade
sonhamos com receio
e o fruto do receio
atingiu maioridade.
ó! tu foste tão bela!
agora ainda
tão bela,
recolho teus adornos...
não a vejo como eras
nem sou mais a tua escolha.
a paixão e seu desfolho
meu bem, fez questão
de olhar com nosso olho.
Cristiano Siqueira
recolho teus adornos...
não a vejo como eras
nem sou mais a tua escolha.
a paixão e seu desfolho
meu bem, fez questão
de olhar com nosso olho.
Cristiano Siqueira
(Foto de Nils Jorgensen)

amor involuntário
(há o amor que não começa nem termina, só permanece...)
quando esse amor
(que tanto atordoa)
implora que eu lhe esqueça os motivos,
eu o imploro que fique,
inconseqüente,
por mais que triste,
por mais que me doa.
quando enfim cogito:
agora sim esse amor foi embora!
ele ressurge
tão novo quanto antigo,
monumento do que sinto
fixo, no peito da memória.
quando desse amor desisto
e rasgo de seu livro todas as folhas,
ele denuncia em meus olhos
tudo que vivo,
e não posso ter escolha...
Cristiano Siqueira
(que tanto atordoa)
implora que eu lhe esqueça os motivos,
eu o imploro que fique,
inconseqüente,
por mais que triste,
por mais que me doa.
quando enfim cogito:
agora sim esse amor foi embora!
ele ressurge
tão novo quanto antigo,
monumento do que sinto
fixo, no peito da memória.
quando desse amor desisto
e rasgo de seu livro todas as folhas,
ele denuncia em meus olhos
tudo que vivo,
e não posso ter escolha...
Cristiano Siqueira
(Foto de Adrian Fisk)

amor e pouco caso
penso que de mim
tu fazes muito
pouco caso!
um vaso de flores
abandonado, morre
meus amores-perfeitos.
usas de pára-peito
se a ti me ofereço,
não tens comigo
sequer algum apreço,
sabes que não desisto
e de amor me entristeço.
mas não me vens sempre assim...
num impulso desenganado
de teu devir,
rega minhas flores
toma meu pulso
e em teu seio
cura meu peito.
tu fazes muito
pouco caso!
um vaso de flores
abandonado, morre
meus amores-perfeitos.
usas de pára-peito
se a ti me ofereço,
não tens comigo
sequer algum apreço,
sabes que não desisto
e de amor me entristeço.
mas não me vens sempre assim...
num impulso desenganado
de teu devir,
rega minhas flores
toma meu pulso
e em teu seio
cura meu peito.
cruel, queres-me curado
pra fazer de mim,
o que fazes com capricho
e sequer algum enfado:
muito pouco caso!
Cristiano Siqueira
pra fazer de mim,
o que fazes com capricho
e sequer algum enfado:
muito pouco caso!
Cristiano Siqueira
(Foto de Trent Parke)

Amor em pezinho
Brotou ao lado de casa
entre a fresta da calçada
enfrentando frio e calor,
pezinho verde de amor.
Ninguém sequer o regou.
Seu nascimento e a ânsia
salvaram-se da eclampsia
nas mãos claras do vento.
Eu bem que vi haver
algo de muito inquieto
a surgir desavisado
e a ficar por perto.
Cresceu, deu frutos
e a vontade de comer.
Sorveu meu coração
desde então meu ser.
E agora brota do nada
entre a fresta do meu peito
um elo de céu e flor:
pezinho vermelho de amor.
Cristiano Siqueira
Brotou ao lado de casa
entre a fresta da calçada
enfrentando frio e calor,
pezinho verde de amor.
Ninguém sequer o regou.
Seu nascimento e a ânsia
salvaram-se da eclampsia
nas mãos claras do vento.
Eu bem que vi haver
algo de muito inquieto
a surgir desavisado
e a ficar por perto.
Cresceu, deu frutos
e a vontade de comer.
Sorveu meu coração
desde então meu ser.
E agora brota do nada
entre a fresta do meu peito
um elo de céu e flor:
pezinho vermelho de amor.
Cristiano Siqueira
(Foto de Maureen Bisilliat)

Amor destinado
(a quem depois direi...)
prometidos um ao outro...
deito a olhar o céu, aprisionado
à liberdade desse pensamento.
mesmo que a íris do tempo não veja,
nada haverá de impedir!
teus passos são raízes
que me plantam aos teus pés.
tua chegada, vaga que me salva do naufrágio,
bússola da viagem às águas de tua ilha!
Cristiano Siqueira
(Foto de Trent Parke)

Amor à distância
só nos resta
este silêncio fecundo...
sobre todas as cartas
não correspondidas
germina-se a distância
entre nossas vidas
como raízes de uma flor;
no vão do mundo...
são outros nossos rumos,
minha prece é o fruto
em que teu vôo se aninha...
estão tuas mãos
noutras mãos,
mas não se foram
as minhas...
Cristiano Siqueira
só nos resta
este silêncio fecundo...
sobre todas as cartas
não correspondidas
germina-se a distância
entre nossas vidas
como raízes de uma flor;
no vão do mundo...
são outros nossos rumos,
minha prece é o fruto
em que teu vôo se aninha...
estão tuas mãos
noutras mãos,
mas não se foram
as minhas...
Cristiano Siqueira
(Foto de Vicente Sampaio)

Amor inseparável
Ainda que não nos vejamos
E tornem-se nossos olhos opacos,
Frios por não nos termos visto,
Ainda que eu não saiba
Planar o olhar de minha asa
Sobre a aldeia onde te encontro,
Ainda que tu não me busques
Por não saber onde estás
E não ter para mim donde partir,
Ainda que as fronteiras
Tornem-se ilimitadas
E nossas casas afastadas,
Ainda que haja matrimônio
Vivamos felizes com outros
E esquecendo do que fomos,
Ainda que o sopro de tua flauta
Seja o fio da melodia
Que eu não possa segui-la,
Ainda que estejamos às margens
Da saudade como um mar
Contrário à rota que nos une,
Ainda que o ainda desse poema
Seja um grito de Adeus
Que não conseguimos suportar,
Ainda que o desengano da vida
Num instante eterno nos separe,
Não separará!
Cristiano Siqueira
(Foto de Adrian Fisk)

Amor a todo custo
Se me amas, engoles então
Toda minha árdua poesia!
Versos tristes e contrários
De quando contigo alegre eu seguia...
Os dois vermelhos do meu olhar
Tem a cor de mil lágrimas perdidas;
A mesma paixão que me ergueu um lar
Rude rói-me ímpia a pobre lida.
Se me amas, não me esqueças.
Não finjas a mim que és tão fria.
Esquecer o amor é lembrar às avessas,
É dor maior o indolor da anestesia!!!
Cristiano Siqueira
Se me amas, engoles então
Toda minha árdua poesia!
Versos tristes e contrários
De quando contigo alegre eu seguia...
Os dois vermelhos do meu olhar
Tem a cor de mil lágrimas perdidas;
A mesma paixão que me ergueu um lar
Rude rói-me ímpia a pobre lida.
Se me amas, não me esqueças.
Não finjas a mim que és tão fria.
Esquecer o amor é lembrar às avessas,
É dor maior o indolor da anestesia!!!
Cristiano Siqueira
(Foto de Gus Powell)

Amor e apartamento
Nenhuma dor alcança
A dor da distância!
Triste, tateio rastros
Entre as paredes do quarto...
Sombras de passos
Trançados na esperança
Do porvir, foram ameaçadas
De ir pra U.T.I.
Há a saudade e sua ausência...
A maldade da vida
Não nos haveria de apartar,
Nem quando damos licença.
Nenhuma dor alcança
A dor da distância!
Triste, tateio rastros
Entre as paredes do quarto...
Sombras de passos
Trançados na esperança
Do porvir, foram ameaçadas
De ir pra U.T.I.
Há a saudade e sua ausência...
A maldade da vida
Não nos haveria de apartar,
Nem quando damos licença.
Cristiano Siqueira
(Foto de Nils Jorgensein)

Amor acumulado
Não conseguimos nos dizer
O quanto amamos...
Mas tentamos o silêncio necessário
Pra ilustrar o amor.
Porque não há palavra,
O que se sente ao peito trava!
Entre nós nada está assumido:
Caminho curvo do destino.
Vem crescendo o sentimento...
Vendavais vão lançar aos céus
A nudez pendida nos varais
De nossas luas de mel!
E quando o amor não suportar mais seu acúmulo,
O que somos germinará profundo...
Faremos tudo!
pra ficarmos juntos!
Cristiano Siqueira
Não conseguimos nos dizer
O quanto amamos...
Mas tentamos o silêncio necessário
Pra ilustrar o amor.
Porque não há palavra,
O que se sente ao peito trava!
Entre nós nada está assumido:
Caminho curvo do destino.
Vem crescendo o sentimento...
Vendavais vão lançar aos céus
A nudez pendida nos varais
De nossas luas de mel!
E quando o amor não suportar mais seu acúmulo,
O que somos germinará profundo...
Faremos tudo!
pra ficarmos juntos!
Cristiano Siqueira
(Foto de Adrian Fisk)

Amor com medo
A quem não preciso dizer quem é...Tenho medo de não amar
Natural de quem ama!
Se com isso tu te espantas,
Não sabes o que é amar...
Quero amar como se ama:
Sem querer saber amar...
Amor só se aprende na vida
Quando não sai das tentativas...
Tenho medo do meu amor
De repente acabar, ou de tua vida
Da minha tornar-se distante...
Porque te amo...
E num instante,
Meu medo quer provar!
Natural de quem ama!
Se com isso tu te espantas,
Não sabes o que é amar...
Quero amar como se ama:
Sem querer saber amar...
Amor só se aprende na vida
Quando não sai das tentativas...
Tenho medo do meu amor
De repente acabar, ou de tua vida
Da minha tornar-se distante...
Porque te amo...
E num instante,
Meu medo quer provar!
Cristiano Siqueira
(Foto de Vicente Sampaio)

Amor eterno!
Amor eterno,
Onde estás que não te vejo?
Escorrem pelos meus medos,
Teus rastros primeiros...
A vastidão de teus segredos!
Passageiro de si mesmo,
Tuas cartas são os ventos
Dos místicos corações
Amor eterno,
Onde estás que não te vejo?
Escorrem pelos meus medos,
Teus rastros primeiros...
A vastidão de teus segredos!
Passageiro de si mesmo,
Tuas cartas são os ventos
Dos místicos corações
Postadas em vermelho...
Dos céus tu és um mito!
Roga Deus em orações
Ser de ti, ao menos,
O mínimo.
Por ti, clamam amores!
O sentido das águas
E as flores dos planetas!
Por ti, a idade dos tempos
Alcança os teus ensejos!
E quando tudo enfim
O amor eterno explora,
Ainda avança...
Dos céus tu és um mito!
Roga Deus em orações
Ser de ti, ao menos,
O mínimo.
Por ti, clamam amores!
O sentido das águas
E as flores dos planetas!
Por ti, a idade dos tempos
Alcança os teus ensejos!
E quando tudo enfim
O amor eterno explora,
Ainda avança...
Ao seu próprio recomeço...
Cristiano Siqueira
(Foto de Inez Wiederhecker)

Amor sem tempo
Eu, súdito de tua ausência,
Recomponho os ares pelos quais
Navegaram teus perfumes.
Trago em mim a cicatriz de teu silêncio,
Ardo na lembrança de teus vagos lábios perpétuos!
Tu que levastes a ti os meus lugares
E fizeste de minh’alma teu manto em torno a mim,
Não dás conta que me adentro em inverno rigoroso,
Onde o mantimento é a fome de teu pêlo.
Ah! Viesse agora a sombra de tua boca
Para nela repousar a flama de meu beijo!
Eu não te poderia amar;
Tu não saberias me dar tempo...
Trago em mim a cicatriz de teu silêncio,
Ardo na lembrança de teus vagos lábios perpétuos!
Tu que levastes a ti os meus lugares
E fizeste de minh’alma teu manto em torno a mim,
Não dás conta que me adentro em inverno rigoroso,
Onde o mantimento é a fome de teu pêlo.
Ah! Viesse agora a sombra de tua boca
Para nela repousar a flama de meu beijo!
Eu não te poderia amar;
Tu não saberias me dar tempo...
Cristiano Siqueira
(Foto de Vincente Sampaio)

Amor de tirar sono
Faz frio.
A madrugada sobre a qual
me deitei sangra meu sono.
Os ponteiros do relógio
Faz frio.
A madrugada sobre a qual
me deitei sangra meu sono.
Os ponteiros do relógio
são duas sílabas de teu nome.
Um vento assustado
vem se remexer sem nunca haver
se remexido entre o chão e a cama.
Uivos plúmbeos
remoinham folhas secas
da janela desesperançada.
Amanhece?
Faz frio.
A roxa manhã reflete a cor
dos meus olhos por de baixo.
Os ponteiros do relógio
Um vento assustado
vem se remexer sem nunca haver
se remexido entre o chão e a cama.
Uivos plúmbeos
remoinham folhas secas
da janela desesperançada.
Amanhece?
Faz frio.
A roxa manhã reflete a cor
dos meus olhos por de baixo.
Os ponteiros do relógio
são duas sílabas de teu nome.
Como se minha taquicardia
fosse causa letárgica
da dor que tu,
inocentemente,
Como se minha taquicardia
fosse causa letárgica
da dor que tu,
inocentemente,
me deixastes.
Cristiano Siqueira
(Foto de Marta Gonçalves)

Amor pornô
(Poema pra ser lido em cadência de sexo!)
fúria de línguas!
doçura do tempo
pára na libido
que paira...
hálito no outro
voz no gemido,
arroubos!
brilha nossa pele
suor saliva sede!
corpo e corpo
abrigo e perigo
no outro
carinhos brutais
e mais e mais
e mais...
perdidas as mãos
espaços e rasgos!
dedos molhados
unhas e rastros
calor e quarto
instintos pelados
mamilos e dentes
a maçã
a serpente!
pouco a pouco
e rapidamente
entre coxa e segredo
de repente,
um desespero:
Vem, vai, vem!
Meu bem, é isso!?
Ganho meus sentidos
Quando gozo contigo!
doçura do tempo
pára na libido
que paira...
hálito no outro
voz no gemido,
arroubos!
brilha nossa pele
suor saliva sede!
corpo e corpo
abrigo e perigo
no outro
carinhos brutais
e mais e mais
e mais...
perdidas as mãos
espaços e rasgos!
dedos molhados
unhas e rastros
calor e quarto
instintos pelados
mamilos e dentes
a maçã
a serpente!
pouco a pouco
e rapidamente
entre coxa e segredo
de repente,
um desespero:
Vem, vai, vem!
Meu bem, é isso!?
Ganho meus sentidos
Quando gozo contigo!
Cristiano Siqueira
(Foto de Adrian Fisk)

amor e fé
para olhar os prazeres do céu,
deitei-me ao lado
do santuário.
ela veio chegando
como quem já havia
chegado, com tanta poesia,
tanta certeza no andado.
deitou-se por sobre
meu corpo assustado
o inverso do pecado
e amei sua pele
tanto quanto amava o céu
seu vestido prateado!
céus!
só há Deus
que justifique a fé,
quando amo as costas,
os ombros e os seios
dessa mulher!
Cristiano Siqueira
para olhar os prazeres do céu,
deitei-me ao lado
do santuário.
ela veio chegando
como quem já havia
chegado, com tanta poesia,
tanta certeza no andado.
deitou-se por sobre
meu corpo assustado
o inverso do pecado
e amei sua pele
tanto quanto amava o céu
seu vestido prateado!
céus!
só há Deus
que justifique a fé,
quando amo as costas,
os ombros e os seios
dessa mulher!
Cristiano Siqueira
(Foto de Marta Gonçalves)

Amor ideal
És a primavera de meus dias
Quem trouxe o colorido
Para os meus cinzas
O brilho entre os braços da estrela
Que quando criança eu estendia
As mãos para tê-la
Aquela flor nascida no muro
Acima da janela, que a chuva rega
Solitária entre as pétalas
Única e bela, exata
O foco de minhas nostalgias
Meu ideal de mulher amada!
Cristiano Siqueira
És a primavera de meus dias
Quem trouxe o colorido
Para os meus cinzas
O brilho entre os braços da estrela
Que quando criança eu estendia
As mãos para tê-la
Aquela flor nascida no muro
Acima da janela, que a chuva rega
Solitária entre as pétalas
Única e bela, exata
O foco de minhas nostalgias
Meu ideal de mulher amada!
Cristiano Siqueira

Amor escondido
(fere aos olhos, nosso amor escondido...)
(fere aos olhos, nosso amor escondido...)
o que dói, é meu olhar...
sem dizer tudo que diria
neste amor escondido,
não digo: tu és minha!
por isso; meu olho está ferido!
confesso as dádivas que eu teria
rezo centenas de Ave-Marias!
pois prefiro pecar ao teu lado
a morrer de amor santificado!
quando não nos olhamos,
eu me pergunto até quando?
tu não virás curar
a ferida do meu olhar!
Cristiano Siqueira
(Foto de Amani Willett)

Amor clandestino
Este amor que num vai,
Nem racha,
Anda mais sem gosto
Que almoço com pressa;
Tão mais louco quanto dor
Que se venera!
Este amor que tanto necessito
Desde o mito do hímen
Até suas doenças venéreas,
Há de me encontrar
Na tristeza de um sorriso,
E na candura das tragédias!
Cristiano Siqueira
Este amor que num vai,
Nem racha,
Anda mais sem gosto
Que almoço com pressa;
Tão mais louco quanto dor
Que se venera!
Este amor que tanto necessito
Desde o mito do hímen
Até suas doenças venéreas,
Há de me encontrar
Na tristeza de um sorriso,
E na candura das tragédias!
Cristiano Siqueira
(Foto de Richard Bram)

amor disfarçado
evite-me.
confio neste teu jeito
escancarado
de me afirmar negando
sinto-me bem
quando desolhas,
pois nada diz mais
que um disfarce de olhos
e quando despercebida
te trais, me desando!
não estou acostumado
a não ser evitado...
evite-me.
e me traga ao teu lado.
Cristiano Siqueira
evite-me.
confio neste teu jeito
escancarado
de me afirmar negando
sinto-me bem
quando desolhas,
pois nada diz mais
que um disfarce de olhos
e quando despercebida
te trais, me desando!
não estou acostumado
a não ser evitado...
evite-me.
e me traga ao teu lado.
Cristiano Siqueira
(Foto de Trent Park)

Amor e ímpeto
Se for o caso,
te agarro à força!
Mas nunca com a força
que não tenhas esperado...
Me impele o clamor
de teu charme, me implora
a chama de tua pele
num desarme!
E na volúpia de nos ter
encontrado, sóis e luas
serão nossos
átomos!
Se for o caso,
me agarres à força!
Mas com muito mais força
que eu tenha esperado...
Cristiano Siqueira
Se for o caso,
te agarro à força!
Mas nunca com a força
que não tenhas esperado...
Me impele o clamor
de teu charme, me implora
a chama de tua pele
num desarme!
E na volúpia de nos ter
encontrado, sóis e luas
serão nossos
átomos!
Se for o caso,
me agarres à força!
Mas com muito mais força
que eu tenha esperado...
Cristiano Siqueira
(Foto de David Gibson)

amor coincidente
não esperamos pela mesma esquina
onde um desatino nos fez esbarrar
não decidimos o segundo de enviar
um ao outro o mesmo recado de celular
não ensaiamos quando eu sorria
com os teus lábios nas fotografias
não combinamos de regar juntos
a mais distante flor do outono
não acordamos o que seria sonho
nem o cimo de teu sono dentro do meu
não falamos do cetro do destino
a desenhar na areia o risco por onde vamos
não vimos quando o calor de teu dorso
percorreu os veios do m de minhas mãos
não temos nada a ver com tudo isso
apenas foi preciso um amor com mistérios
pra nos conspirar a favor.
Cristiano Siqueira
não esperamos pela mesma esquina
onde um desatino nos fez esbarrar
não decidimos o segundo de enviar
um ao outro o mesmo recado de celular
não ensaiamos quando eu sorria
com os teus lábios nas fotografias
não combinamos de regar juntos
a mais distante flor do outono
não acordamos o que seria sonho
nem o cimo de teu sono dentro do meu
não falamos do cetro do destino
a desenhar na areia o risco por onde vamos
não vimos quando o calor de teu dorso
percorreu os veios do m de minhas mãos
não temos nada a ver com tudo isso
apenas foi preciso um amor com mistérios
pra nos conspirar a favor.
Cristiano Siqueira
(Foto de Jeffrey Ladd)

amor em tudo!
na madrugada dos cruzamentos
ama a puta e o filho da puta
que ainda não nasceu
ama o hímen da virgem
a mãe antiga, matrimônio
da filha com clamídia
nos cemitérios choram
parafinas, as velas
por amores que partiram...
ama o menino
que não ama a menina
por não ter idade ainda
ama o cientista ao poeta
que não ama a métrica
da língua sem coração
ama o sol aos íons
do poente que ama
o mol do eclipse lunar
o mar reflete a lua cheia
na areia que ama as horas
vagas dos namorados
ama o mendigo sujo
e sem cama, flagrado
trepando em público
a muda ama o mudo
e eu quero aprender libras
pra ter palavras tão vivas!
ama a noiva ao seu noivo
pouco antes do noivado
que no altar desapareceu
ama as cartas guardadas
de amor resistidas
nas gavetas com traças
ama o filho de proveta
do casal estéril, abortado
ainda quando feto
ama o celibato ao pecado,
a água ao terço e a reza,
ama até a bíblia; a guerra
o amor é o signo da terra
tempero de sal, fel e açúcar
amor é tudo, trivial e absurdo!
na madrugada dos cruzamentos
ama a puta e o filho da puta
que ainda não nasceu
ama o hímen da virgem
a mãe antiga, matrimônio
da filha com clamídia
nos cemitérios choram
parafinas, as velas
por amores que partiram...
ama o menino
que não ama a menina
por não ter idade ainda
ama o cientista ao poeta
que não ama a métrica
da língua sem coração
ama o sol aos íons
do poente que ama
o mol do eclipse lunar
o mar reflete a lua cheia
na areia que ama as horas
vagas dos namorados
ama o mendigo sujo
e sem cama, flagrado
trepando em público
a muda ama o mudo
e eu quero aprender libras
pra ter palavras tão vivas!
ama a noiva ao seu noivo
pouco antes do noivado
que no altar desapareceu
ama as cartas guardadas
de amor resistidas
nas gavetas com traças
ama o filho de proveta
do casal estéril, abortado
ainda quando feto
ama o celibato ao pecado,
a água ao terço e a reza,
ama até a bíblia; a guerra
o amor é o signo da terra
tempero de sal, fel e açúcar
amor é tudo, trivial e absurdo!
Cristiano Siqueira
(Foto de Narelle Autio)

amor e memória
lentamente
o esquecimento...
não sei se lembro rápido
ou se venho te esquecendo
o conteúdo das palavras tristes
vem preencher minha existência
com a solidão de tua ausência
e me alivio...
não estou contigo,
não corro perigo
do medo que eu tinha:
esquecer-te algum dia...
lentamente
o esquecimento...
não sei se lembro rápido
ou se venho te esquecendo
o conteúdo das palavras tristes
vem preencher minha existência
com a solidão de tua ausência
e me alivio...
não estou contigo,
não corro perigo
do medo que eu tinha:
esquecer-te algum dia...
Cristiano Siqueira
(Foto David Gibson)

amor perdido
vaguei por tempestuosas
madrugadas onde estagnavam
as ruas mais sombrias.
perdi meus caminhos,
e os pertences de ser
quem eu era procurando ser.
solucei meus desesperos
e quanto mais clamei aos céus
mais estive abandonado.
em meio às guerrilhas de meu peito
aos que queriam dissolver
minha individualidade, sofri!
tive posses e tive fome
perdi amores e dinheiros
e dos conflitos
muitas vezes pereci...
...mas nada houve
de tão atordoado
neste mundo,
quanto perder a ti
sem nunca
a ter tido.
Cristiano Siqueira
vaguei por tempestuosas
madrugadas onde estagnavam
as ruas mais sombrias.
perdi meus caminhos,
e os pertences de ser
quem eu era procurando ser.
solucei meus desesperos
e quanto mais clamei aos céus
mais estive abandonado.
em meio às guerrilhas de meu peito
aos que queriam dissolver
minha individualidade, sofri!
tive posses e tive fome
perdi amores e dinheiros
e dos conflitos
muitas vezes pereci...
...mas nada houve
de tão atordoado
neste mundo,
quanto perder a ti
sem nunca
a ter tido.
Cristiano Siqueira
(Foto de Fernando Angulo)

Amor e âmago
Teu busto refletido
Custo não olhar.
Te aprecio indireto
E sem raciocínio
Não há maldade no que sinto.
Se me expõe mais o decote
Receio mal me entender
Os motivos
Não se trata só de impulso
Incertos desejos
Língua e seios
Estar antes de tudo
Distraído apreciando,
Minha fome
De teu âmago.
Cristiano Siqueira
Teu busto refletido
Custo não olhar.
Te aprecio indireto
E sem raciocínio
Não há maldade no que sinto.
Se me expõe mais o decote
Receio mal me entender
Os motivos
Não se trata só de impulso
Incertos desejos
Língua e seios
Estar antes de tudo
Distraído apreciando,
Minha fome
De teu âmago.
Cristiano Siqueira
(Foto de Robb Debenport)

Amor e divórcio
Apartaste de mim
Como a flor de seu haste
Como o pomo de Adão
Caminhas por tua casa,
Nua passas pela cozinha
E vai regar o jardim.
Abertas as janelas da casa...
Em teu sonho de liberdade
A minha ausência.
Eu lutei com toda minha força
Alma e instinto de sobrevivência!
Venceu-me tua individualidade
A vontade que eu tinha
De chamar-lhe ainda:
Esposa minha...
Cristiano Siqueira
Apartaste de mim
Como a flor de seu haste
Como o pomo de Adão
Caminhas por tua casa,
Nua passas pela cozinha
E vai regar o jardim.
Abertas as janelas da casa...
Em teu sonho de liberdade
A minha ausência.
Eu lutei com toda minha força
Alma e instinto de sobrevivência!
Venceu-me tua individualidade
A vontade que eu tinha
De chamar-lhe ainda:
Esposa minha...
Cristiano Siqueira
(Foto de Leonid Streliaev)

Amor e ruínas
Ele me quer para as ruínas.
Mas se estou despedaçado,
Ao menos dele
Ele me quer para as ruínas.
Mas se estou despedaçado,
Ao menos dele
Sou seus estilhaços...
Eu vim pra que ele me desobedeça
Vomite suas lágrimas
Neste poço do meu corpo:
Invólucro de sangue
Circulando-o estanque!
E se me julgas
De só a mim afetar
Meu pessimismo
- Caro amigo leitor -
Ora! Não estou falando disso
Sintam muito! Estou falando do amor!
Cristiano Siqueira
Eu vim pra que ele me desobedeça
Vomite suas lágrimas
Neste poço do meu corpo:
Invólucro de sangue
Circulando-o estanque!
E se me julgas
De só a mim afetar
Meu pessimismo
- Caro amigo leitor -
Ora! Não estou falando disso
Sintam muito! Estou falando do amor!
Cristiano Siqueira
(Foto de Christophe Agou)

Amor e casamentos
A louca chorava na porta do super-mercado,
Dizia sobre seu marido falecido de infarto
– dez anos passados!
Que poderia ter-lhe sido mais presente,
Tão logo quase percebera seu peito pálido,
O jeito de olhar doente,
A língua no céu da boca agreste
E o pescoço atrofiado.
Não suspeitei de qualquer arritmia
Artéria aorta entupida nem pressão alta...
Eu não poderia, antes de sua morte,
Saber do inevitável ou da anestesia
Pra suportar a repentina dor da perda.
Travestido de sua vida, eu a escutava...
Não tive lenço branco pra oferecer-lhe
E suavizar a queda de suas lágrimas
Mas estendi as mãos em concha.
Projetei seu sofrimento para dentro de mim,
Vivi as bodas de seu matrimônio,
Gestei seus filhos,
Jantei com seu marido contando-me
Da promoção no trabalho.
Fui o escuro triste de sua viuvez
E a indignação com a pressa de Deus:
Ainda cedo morreu quem não deveria!
Chega um homem alto, preocupado.
Ternura no aconchego do lábios:
- Com licença, nos desculpe...
Somos há dez anos casados
Sou esposo de quem lhe confia o choro.
A louca chorava na porta do super-mercado,
Dizia sobre seu marido falecido de infarto
– dez anos passados!
Que poderia ter-lhe sido mais presente,
Tão logo quase percebera seu peito pálido,
O jeito de olhar doente,
A língua no céu da boca agreste
E o pescoço atrofiado.
Não suspeitei de qualquer arritmia
Artéria aorta entupida nem pressão alta...
Eu não poderia, antes de sua morte,
Saber do inevitável ou da anestesia
Pra suportar a repentina dor da perda.
Travestido de sua vida, eu a escutava...
Não tive lenço branco pra oferecer-lhe
E suavizar a queda de suas lágrimas
Mas estendi as mãos em concha.
Projetei seu sofrimento para dentro de mim,
Vivi as bodas de seu matrimônio,
Gestei seus filhos,
Jantei com seu marido contando-me
Da promoção no trabalho.
Fui o escuro triste de sua viuvez
E a indignação com a pressa de Deus:
Ainda cedo morreu quem não deveria!
Chega um homem alto, preocupado.
Ternura no aconchego do lábios:
- Com licença, nos desculpe...
Somos há dez anos casados
Sou esposo de quem lhe confia o choro.
– toma amor, é teu remédio...
E deu a cápsula na boca da amada.
Ao meu desamparo explicou:
- Nunca mais foi a mesma.
Desde quando nos enlaçamos
E morreu amargurado
Seu primeiro namorado.
Cristiano Siqueira
E deu a cápsula na boca da amada.
Ao meu desamparo explicou:
- Nunca mais foi a mesma.
Desde quando nos enlaçamos
E morreu amargurado
Seu primeiro namorado.
Cristiano Siqueira
(Foto de Trent Parke)

Amor a si (II)
a mim, quase...
A última vez que foi visto
Diziam estar estranho e perdido.
Nem souberam dizer se era
Mesmo ele quem viram
Carregava uma mala cheia
De livros e uma caneta,
Atrás de uma orelha de sol
Queimada; vermelha
Sentado num alpendre
Almoçando comida dada
Por um poeta combatente
Das palavras com máscaras,
Sorria sem dentes e ensimesmado.
Descalço e com olhos serenos
Ter-se encontrado mais ameno
Ele demonstrava... Parecia
Saber tudo aquilo que nosso
Medo escondia e dava asas!
Por vezes escrevia num caderno
Alguns poemas sobre a existência.
Tirava das algibeiras do céu
Suas folhas de páginas aluadas...
A última vez que foi visto
Todos ficaram perplexos!
Ele era seu próprio estado.
Capaz de ser de si
Nação plural e solitária,
Simples se aproximava
Não ser do próprio coração,
Um apátrida!
Cristiano Siqueira
a mim, quase...
A última vez que foi visto
Diziam estar estranho e perdido.
Nem souberam dizer se era
Mesmo ele quem viram
Carregava uma mala cheia
De livros e uma caneta,
Atrás de uma orelha de sol
Queimada; vermelha
Sentado num alpendre
Almoçando comida dada
Por um poeta combatente
Das palavras com máscaras,
Sorria sem dentes e ensimesmado.
Descalço e com olhos serenos
Ter-se encontrado mais ameno
Ele demonstrava... Parecia
Saber tudo aquilo que nosso
Medo escondia e dava asas!
Por vezes escrevia num caderno
Alguns poemas sobre a existência.
Tirava das algibeiras do céu
Suas folhas de páginas aluadas...
A última vez que foi visto
Todos ficaram perplexos!
Ele era seu próprio estado.
Capaz de ser de si
Nação plural e solitária,
Simples se aproximava
Não ser do próprio coração,
Um apátrida!
Cristiano Siqueira
(Foto de Blake Andrews)

amor e cura
não deixes passar
meu amor,
por favor...
teu silêncio fecundo
espreita toda agonia
que há neste mundo.
os vocalizes do mar
não são suficientes,
nem os fachos do luar
nem mesmo as fadas
a contar abraços de ternura,
nada! meu amor me cura,
da brutal
constância
de poder amar!
Cristiano Siqueira
não deixes passar
meu amor,
por favor...
teu silêncio fecundo
espreita toda agonia
que há neste mundo.
os vocalizes do mar
não são suficientes,
nem os fachos do luar
nem mesmo as fadas
a contar abraços de ternura,
nada! meu amor me cura,
da brutal
constância
de poder amar!
Cristiano Siqueira
(Foto de Christophe Agou)

Amor desanimado
Não fiz poema que prestasse...
O tempo, este apressado
Encurtou as linhas de meu livro
E alargou as rugas de minha face
Tentei em vão, achar-me um poeta
Um exegeta das coisas duras
Foi o que fui, não vi beleza
Na literatura das coisas incertas
Nenhuma palavra, nenhum fascínio
Não pude erguer meu exílio
Abstrato sobre a vida concreta
Não fiz poema que prestasse
Hoje, não me leia, não queira
O fruto de minha insensibilidade.
Não fiz poema que prestasse...
O tempo, este apressado
Encurtou as linhas de meu livro
E alargou as rugas de minha face
Tentei em vão, achar-me um poeta
Um exegeta das coisas duras
Foi o que fui, não vi beleza
Na literatura das coisas incertas
Nenhuma palavra, nenhum fascínio
Não pude erguer meu exílio
Abstrato sobre a vida concreta
Não fiz poema que prestasse
Hoje, não me leia, não queira
O fruto de minha insensibilidade.
Cristiano Siqueira
(Foto de Christophe Agou)

amor calado
não sei com que razão
me doto de ti.
com qual força
vasculho os arcabouços
de tuas sombras.
até quando me condeno
aos sulcos de teus rastros
me impeço de ser eu
e o exaspero do que és
está em tudo que eu faço...
ah! lembrasse o regozijo
de esquecer-te,
como preciso!
este ímpeto: querer-te!
não basta!
sou indeciso de amores...
e se um dia julgar-me fores,
saibas que te amei
calando minha vontade
menos pelo medo de teu não
que pela ventura de amar-te!
Cristiano Siqueira
não sei com que razão
me doto de ti.
com qual força
vasculho os arcabouços
de tuas sombras.
até quando me condeno
aos sulcos de teus rastros
me impeço de ser eu
e o exaspero do que és
está em tudo que eu faço...
ah! lembrasse o regozijo
de esquecer-te,
como preciso!
este ímpeto: querer-te!
não basta!
sou indeciso de amores...
e se um dia julgar-me fores,
saibas que te amei
calando minha vontade
menos pelo medo de teu não
que pela ventura de amar-te!
Cristiano Siqueira
(Foto de Fernando Angulo)

...amor histórico...
é de muito que eu te amo!
antes da invenção do Brasil.
desde quando Nostradamus
e o fim do ano dois mil.
eu te amo desde meu choro
irrompido de nascimento,
mamãe curando umbigo
caído guardado em silêncio.
é bem dantes do primeiro ruído
na boca dos mundos infantes,
que te amando eu venho
estampando no cenho...
eu te amo tanto quanto mais
não consigo expressar meus ais.
eu te amo com dor de tango
e com a cor dos relâmpagos!
é de muito que eu te amo!
antes da invenção do Brasil.
desde quando Nostradamus
e o fim do ano dois mil.
eu te amo desde meu choro
irrompido de nascimento,
mamãe curando umbigo
caído guardado em silêncio.
é bem dantes do primeiro ruído
na boca dos mundos infantes,
que te amando eu venho
estampando no cenho...
eu te amo tanto quanto mais
não consigo expressar meus ais.
eu te amo com dor de tango
e com a cor dos relâmpagos!
Cristiano Siqueira
(Foto de Fernando Angulo)

amor espacial
comprimento,
largura e altura
deste amor,
são dimensões do vento...
sua área total
erra pelo volume
do espaço sideral!
este amor é o fumo
do incenso que Deus
nos cumes do céu escreveu
mais, muito mais!
este amor é um ponto e um só ponto
donde origina o metro
e toda geometria do universo!
Cristiano Siqueira
comprimento,
largura e altura
deste amor,
são dimensões do vento...
sua área total
erra pelo volume
do espaço sideral!
este amor é o fumo
do incenso que Deus
nos cumes do céu escreveu
mais, muito mais!
este amor é um ponto e um só ponto
donde origina o metro
e toda geometria do universo!
Cristiano Siqueira
(Foto de Ivana Andrade)

Amor imenso!
Amo tuas palavras,
A forma com que escreves
Ou falas!
Tens o coração vasto das aves
Ternura de infâncias
Batismo das águas...
Olho-te os olhos em silêncio
Como quem pressente e se envolve
Para o sempre.
Teu afeto comove, inspira!
No teu coração que cabe
Os amores da terra
O universo quer entrar...
Minha vontade se expande
Sou explosão dos astros
Gênese dos espaços
E o suor de teus dedos...
Respiro descompassos
Estremeço a terra
Abrem-se em fendas todas as eras
Quando desejo teus cabelos,
Tua história, tua voz, tuas unhas
Refletidas nos brilhos dos sóis!
Tu és o que me existe.
Tens as curvas do vento,
E o mistério por detrás
Das cachoeiras...
Do que tenho foste, és e serás
Razão de meu âmago
Disposição das notas de Bach
Primeiro gesto dos céus
Fôlego de meu grito irrompido
Por meus nascimentos
E seus pedidos.
Torno-me quem sou
De repente,
Findando procuras
Sou lado de Deus!
Vivo um estado entre a lágrima
E o impulso da lágrima...
Estou entre o sorriso contido
E a gargalhada...
Enfim,
Ó minha adorada!
Não posso ser nada...
Este nosso amor,
É todo por mim!
Cristiano Siqueira
(Foto de Guto Bertagnolli)
Amo tuas palavras,
A forma com que escreves
Ou falas!
Tens o coração vasto das aves
Ternura de infâncias
Batismo das águas...
Olho-te os olhos em silêncio
Como quem pressente e se envolve
Para o sempre.
Teu afeto comove, inspira!
No teu coração que cabe
Os amores da terra
O universo quer entrar...
Minha vontade se expande
Sou explosão dos astros
Gênese dos espaços
E o suor de teus dedos...
Respiro descompassos
Estremeço a terra
Abrem-se em fendas todas as eras
Quando desejo teus cabelos,
Tua história, tua voz, tuas unhas
Refletidas nos brilhos dos sóis!
Tu és o que me existe.
Tens as curvas do vento,
E o mistério por detrás
Das cachoeiras...
Do que tenho foste, és e serás
Razão de meu âmago
Disposição das notas de Bach
Primeiro gesto dos céus
Fôlego de meu grito irrompido
Por meus nascimentos
E seus pedidos.
Torno-me quem sou
De repente,
Findando procuras
Sou lado de Deus!
Vivo um estado entre a lágrima
E o impulso da lágrima...
Estou entre o sorriso contido
E a gargalhada...
Enfim,
Ó minha adorada!
Não posso ser nada...
Este nosso amor,
É todo por mim!
Cristiano Siqueira
(Foto de Guto Bertagnolli)

Amor ao beco
A vida é um beco
Onde nas madrugadas
Masturbam as putas
E de manhã, logo cedo
Passam beatas
Rezando seus terços
Crianças brincam à tarde
Velhos escarram a idade
Um ônibus mata o motoqueiro!
A vida é uma merda!
Às vezes estéril
Outras fértil,
Serve de esterco
Às margaridas
Ruim a vida é
Pra que não seja...
Da minha janela
Eu vejo
Por onde me atravesso,
O beco...
Cristiano Siqueira
(Foto de Sebastião Salgado)

Amor sorrindo
equilibra
meio sem jeito seu sorriso.
se tropeça
o sorriso cai
se respira o sorriso vai
dar nas nuvens,
como um balão de gás...
que lhe faz nos lábios o sorriso?
poderia o sorriso voar,
morar nas fendas da terra que caminham pro mar
(ou pro magma),
sentar-se à beira da metafísica
ou ser concreto armado.
que lhe ajuda equilibrar o sorriso?
se mesmo equilibrando é mais desequilíbrio...
de onde vem esse ânimo ó! sorriso
querer habitar sua boca e em flor desabrochar?
e o sorriso responde sorrindo:
– é amor!
Cristiano Siqueira
(Foto de Evelyn Ruman)

Amor de infância
Quando criança
De amores vivia.
Sem deixar saber
A amada
Eu a namorava!
- Gosto de cabelos molhados...
E eu cedo molhava os cabelos
Ao gosto de seu agrado.
- Você bem não é tão feio...
E logo eu corria
Para o ego dos espelhos.
Cantava no imaginário
Como fosse famoso e só dela.
Só ela minha platéia!
Jogava de corpo,
Mudava o andado,
Falava mais grosso
Pra manter o namoro.
E se acaso ela viesse
Pelo mesmo viés
Que eu vinha,
Era desespero!
O que fazer depois do beijo?
Cristiano Siqueira
(Foto de Robert Capa)

Amor às baratas
Uma barata sai pelo ralo!
Não tenho coragem de mata-la.
Ela ainda sem asa
Mal-nascida
Nua e atrevida,
Me olha
Com antenas molhadas!
Não te mato
Barata safada!
Não te mato!
No fundo eu a invejo!
Vejo que de si mesma
Tu não sentes teu asco!
Cristiano Siqueira
(Foto de Emanuel Couto - fonte: olhares.com)

Amor de pazes
Façamos as pazes!
A paz que trazes
como se adormecesse
em leito tirante
aos céus lilases!
Ó amor! Regresse
ante o que temos
e vivemos antes
da discórdia.
O porvir
é nossa história!
Erram pelas jugulares
do desperdício,
todas nossas vozes
engolidas, amores
seculares perdidos
por não serem
confessados.
Um semblante vem
por nós entristecendo
e não nos faz seguir
adiante.
Partilhemos da tristeza unidos
e não tenhamos a crueza
de ver enfermiço,
o regozijo do amor!
Façamos as pazes!
A paz que trazes
como se adormecesse
em leito tirante
aos céus lilases!
Ó amor! Regresse
ante o que temos
e vivemos antes
da discórdia.
O porvir
é nossa história!
Erram pelas jugulares
do desperdício,
todas nossas vozes
engolidas, amores
seculares perdidos
por não serem
confessados.
Um semblante vem
por nós entristecendo
e não nos faz seguir
adiante.
Partilhemos da tristeza unidos
e não tenhamos a crueza
de ver enfermiço,
o regozijo do amor!
Cristiano Siqueira
(Com gratidões à estimável poetiza e amiga Eline Barbosa, pela honra de sua-minha constante leitura)
(Foto de Inez Antunes)
amor louco
eu amo como um louco!
não há com o que mais sofro
se amar for tão pouco.
euamocomoumtodo!
Cristiano Siqueira
(Foto de Ivana Andrade)
amor limiar
se nosso amor é limiar
deixe ao menos eu beijar
o canto de tua boca!
faz logo essa cara de espanto
e me implore um beijo à força
nos céus de tua língua!
no sopro fronteiriço
entre o que pode ser
e o que será,
não quero pensar!
Cristiano Siqueira
se nosso amor é limiar
deixe ao menos eu beijar
o canto de tua boca!
faz logo essa cara de espanto
e me implore um beijo à força
nos céus de tua língua!
no sopro fronteiriço
entre o que pode ser
e o que será,
não quero pensar!
Cristiano Siqueira

amor primeiro
choraram poetas
da minha terra
as suas musas
serenatas nas janelas
das praças.
cresci ouvindo
música de amor
às amadas!
eu queria um violão,
caderninho de poesia...
ser adulto para um dia
pedir a mão da menina
minha vizinha
era tão linda!
mesmo quando adoeceu...
e até hoje,
toda mulher
não foi sequer
a menina que tive
e tão cedo morreu...
Cristiano Siqueira
choraram poetas
da minha terra
as suas musas
serenatas nas janelas
das praças.
cresci ouvindo
música de amor
às amadas!
eu queria um violão,
caderninho de poesia...
ser adulto para um dia
pedir a mão da menina
minha vizinha
era tão linda!
mesmo quando adoeceu...
e até hoje,
toda mulher
não foi sequer
a menina que tive
e tão cedo morreu...
Cristiano Siqueira
(Arte de Aline Siqueira)

amor proibido
todo poeta tem um amor proibido!
mas não se preocupe comigo.
antes que eu me culpe,
faço versos de inocência
aos teus modos de amante.
e te declaro e te declamo e te cristianizo...
meus joelhos junto aos teus
soerguidos pelas mãos de Deus!
e que chovam granizos de fogo
depois que virarmos sal,
pouco importa se viver de amor
foi pecar bem ou mal!
Cristiano Siqueira
todo poeta tem um amor proibido!
mas não se preocupe comigo.
antes que eu me culpe,
faço versos de inocência
aos teus modos de amante.
e te declaro e te declamo e te cristianizo...
meus joelhos junto aos teus
soerguidos pelas mãos de Deus!
e que chovam granizos de fogo
depois que virarmos sal,
pouco importa se viver de amor
foi pecar bem ou mal!
Cristiano Siqueira
(Foto de Cornel Capa)

Amor amordaçado
Vivo um orgasmo ao contrário.
Atada minha pulsão de vida
Amo calado como quem trata
A ferida, pra que não se cicatrize.
Nas impressões de tua mão
Escorre o suor de meu rosto.
Matizes de teu carinho
Não bastam pra que eu perdure.
Amordaçado o amor, minha boca
Me tritura, me engole e não digere.
Meus olhos escancaram tua nuca
Na tortura de tuas costas longe de mim.
Lembro o dia em que dizia:
Sonho amar de tardezinha...
E eu com os lençóis dos arrebóis
Ouvi: cala-te! Não queria que tu vinhas!
Cristiano Siqueira
Vivo um orgasmo ao contrário.
Atada minha pulsão de vida
Amo calado como quem trata
A ferida, pra que não se cicatrize.
Nas impressões de tua mão
Escorre o suor de meu rosto.
Matizes de teu carinho
Não bastam pra que eu perdure.
Amordaçado o amor, minha boca
Me tritura, me engole e não digere.
Meus olhos escancaram tua nuca
Na tortura de tuas costas longe de mim.
Lembro o dia em que dizia:
Sonho amar de tardezinha...
E eu com os lençóis dos arrebóis
Ouvi: cala-te! Não queria que tu vinhas!
Cristiano Siqueira
(Arte de Aline Siqueira)

Amor cândido
(Idílio)
vem deitar-te no seio
deste meu amor
sem receio, ó amada!
cubra-te com meu manto,
sou arcanjo enlaçado ao teu véu,
sou martírio se me deixas
não cuida-la,
sou fascínio neste amor
que me afaga.
o luar vem projetar
os céus nos teus cabelos
e nem mesmo Deus
pode detê-los de ser
Deus os teus cabelos!
os sóis vem cingir
seus arcos nos brilhos
de teus lábios
e nem mesmo Deus
pode impedir
a mais cintilante estrela
de inveja-los!
e eu que não posso
ser nada, vivo esperançoso
de ser pleno, ver-te
ao meu peito inclinada...
teus ouvidos
nos meus suspiros:
ó minha amada!
Cristiano Siqueira
(Idílio)
vem deitar-te no seio
deste meu amor
sem receio, ó amada!
cubra-te com meu manto,
sou arcanjo enlaçado ao teu véu,
sou martírio se me deixas
não cuida-la,
sou fascínio neste amor
que me afaga.
o luar vem projetar
os céus nos teus cabelos
e nem mesmo Deus
pode detê-los de ser
Deus os teus cabelos!
os sóis vem cingir
seus arcos nos brilhos
de teus lábios
e nem mesmo Deus
pode impedir
a mais cintilante estrela
de inveja-los!
e eu que não posso
ser nada, vivo esperançoso
de ser pleno, ver-te
ao meu peito inclinada...
teus ouvidos
nos meus suspiros:
ó minha amada!
Cristiano Siqueira
(Foto de Henry Cartier-Bresson)
Amor enunciado:
De todas minhas equações amar-te é a constante. Sabendo-se que o produto de nossos meios é substrato de convívio e harmonia, pare de calcular e diga: mulher bonita, que fazes que não vens e toma parte da minha vida?
Cristiano Siqueira

Amor legado
Quando eu morri
Remexeram todos
Meus pertences.
Nem desordem, fastio,
urgências e calmaria
Nada de roupa, livro,
Cheiro e pasta de dentes.
Nenhum sorriso na parede
Ou melancolia de gavetas vazias,
Nem vôos de gaivotas no espelho
Muito menos minha sede
De envergar os ventos.
Nada encontraram
Quando eu morri,
Os parafusos de meus fusos horários,
Estrelas nas auras
Das mulheres que amei,
Abraços de amigos
Fotografias do tempo,
Exames de urina
Ou boletins em vermelho.
Vasculharam meus restos
E tudo estava perdido,
CPF, identidade, senhas
Nos papéis do esquecimento.
Sumiram minhas vozes na fita,
Sumiram minhas fitas e a fita amarela
Gravada com versos de Noel.
Não souberam de meus medos
Intricados nos azulejos do banheiro
Meus remédios vencidos
Minhas águas de cabeceira
Meu ralos com cabelos
Minha ira convertida
Minhas vésperas
Meu sossego...
Quando eu morri
Os meus cistos ósseos,
A secura dos meus olhos
Fósseis de lágrimas cristalizadas
Ou ainda marejadas
Não foram encontradas.
Estaria para todo sempre morto
Relegado ao desdém natural
De quem morre,
Não fosse os rascunhos
Que deixei num caderno tombado
À beira de minha lápide
E no coração de quem amou:
Meus poemas de amor!
Cristiano Siqueira
(Foto de Renne Burri)

amor vestido
não posso passar a vida
sem vê-la vestida num vestido
que te dei!
feito de tecido tingido
pelas vitrines do sétimo céu
com os vincos de meu quarto crescente
tudo colorido
no lugar por onde andas
com teu vestido de ciranda
mais que um susto
os teus passos abrilhantando
os abismos do crepúsculo
não posso passar a vida
sem vê-la vestida num vestido
que te dei!
teu corpo merece
e todo alumbramento também:
tu tens mais que qualquer mulher tem!
não consigo e te preciso
desfilando para mim abobalhado
no tratado de beleza dos teus babados
e a brisa quer furtar as cores
das linhas com que costurei
minhas mãos em tuas alças
não posso passar a vida
sem vê-la despida de um vestido
que te dei!
Cristiano Siqueira
não posso passar a vida
sem vê-la vestida num vestido
que te dei!
feito de tecido tingido
pelas vitrines do sétimo céu
com os vincos de meu quarto crescente
tudo colorido
no lugar por onde andas
com teu vestido de ciranda
mais que um susto
os teus passos abrilhantando
os abismos do crepúsculo
não posso passar a vida
sem vê-la vestida num vestido
que te dei!
teu corpo merece
e todo alumbramento também:
tu tens mais que qualquer mulher tem!
não consigo e te preciso
desfilando para mim abobalhado
no tratado de beleza dos teus babados
e a brisa quer furtar as cores
das linhas com que costurei
minhas mãos em tuas alças
não posso passar a vida
sem vê-la despida de um vestido
que te dei!
Cristiano Siqueira

amor disforme
(quando não amei, foi o jeito que
encontrei de amar também)
é de propósito
que a faço feia...
pra suportar os teus propósitos
não vejo cabelos,
senão teias
e vejo do viço,
langor e óbito
um raio de sol beijou tua face!
me entretive apenas
com o espectro da luz
e suas propriedades
desertei a poesia
por um cético
olhar métrico
eu te fiz corcunda
murchei-lhe os seios
trouxe opaco pras unhas
vinquei teus sorrisos envelhecidos
quebrei as cordas de teu canto e tua lira
e de tua voz amplifiquei os ruídos.
de propósito te fiz feia,
muito feia!
tudo pra suportar
a dor de tua beleza...
(quando não amei, foi o jeito que
encontrei de amar também)
é de propósito
que a faço feia...
pra suportar os teus propósitos
não vejo cabelos,
senão teias
e vejo do viço,
langor e óbito
um raio de sol beijou tua face!
me entretive apenas
com o espectro da luz
e suas propriedades
desertei a poesia
por um cético
olhar métrico
eu te fiz corcunda
murchei-lhe os seios
trouxe opaco pras unhas
vinquei teus sorrisos envelhecidos
quebrei as cordas de teu canto e tua lira
e de tua voz amplifiquei os ruídos.
de propósito te fiz feia,
muito feia!
tudo pra suportar
a dor de tua beleza...
Cristiano Siqueira
(Arte de Aline Siqueira)
Amor água, terra e arQuando cansares
Da profusão de olhares
Com que te fitam
Quando num suspiro
Clamar a intimidade
De tua mão em abrigo
Quando uma canção
Tua voz ornar
Para o convívio
Um albatroz fará
De seu vôo, sombra
Para o teu alívio.
Quando assomar
As cores do destino
Nas portas sem saída
Quando for caída
A pétala da agonia
Por sobre tua vida
Quando um feixe
Contrito nos capuzes
Do céu assombrar
Um peixe te trará
O alento da benção
Na anágua das águas.
Quando a solidão
Aos ombros da noite
Estender tua cama
Quando falto de amor
Chorares alto: meu Deus
Como se ama?
Quando teu caminho
Na passada de teus eus
Ser tal que desencanta
O humo plantará
No ventre de tuas plantas
Toda a fertilidade da terra.
...
Quando partires
E a tristeza alcançar
O pulso das lágrimas
Quando ficares
E o manto da lástima
For o pranto da alma
Quando enfim
Duvidares que todo
Amor tem seu fim
A ave, o peixe
E o solo teu, amor...
Tudo isso era eu!
Cristiano Siqueira
E a tristeza alcançar
O pulso das lágrimas
Quando ficares
E o manto da lástima
For o pranto da alma
Quando enfim
Duvidares que todo
Amor tem seu fim
A ave, o peixe
E o solo teu, amor...
Tudo isso era eu!
Cristiano Siqueira
(Foto de Aline Siqueira)

Amor gritado!
Cavalo sem rédeas!
Mar de bandeira vermelha!
Veja meu bem! Veja
Meus cataventos alados!
Tenho fúria e doçura!
Danço tango com fado!
Mil centelhas do inferno
Com azaléias no regaço!
Entre a morte e a cura!
O ponteiro e o eterno!
Espírito e ossatura!
Fulgor, opaco e trevas!
Ergo-me de amor piegas
Entre o lixo e a redoma!
Pois nada aquém disso amor,
Toma nome de amor!
Cristiano Siqueira
(Arte de Edvard Munch (1863-1944) - O Grito)
Cavalo sem rédeas!
Mar de bandeira vermelha!
Veja meu bem! Veja
Meus cataventos alados!
Tenho fúria e doçura!
Danço tango com fado!
Mil centelhas do inferno
Com azaléias no regaço!
Entre a morte e a cura!
O ponteiro e o eterno!
Espírito e ossatura!
Fulgor, opaco e trevas!
Ergo-me de amor piegas
Entre o lixo e a redoma!
Pois nada aquém disso amor,
Toma nome de amor!
Cristiano Siqueira
(Arte de Edvard Munch (1863-1944) - O Grito)

Amor pré-histórico
Desde que pela primeira vez
Girou a terra,
Eles vêm se amando...
Desde quando Deus
Nem era talvez,
Desde quando assoma
Ao sentimento
Os rudimentos do idioma.
De remotíssimos tempos
Antes mesmo da química orgânica
Eles vêm se amando...
Ninguém sabe precisar ao certo
Se do amor já havia exemplo
Ou se da infância
Eles próprios criaram
A pedagogia dos exemplos.
Doutores todos
Dos sábios aos tolos
Tentaram medir o porquê
De eles virem se amando...
E a cada vez frustrado um trabalho
Nos tubos de ensaio
Refletido o insucesso numérico dos cientistas
E o desejo homérico único
De amar daquele tanto!
Por estes dias onde grassam
Parcos amores dedicados
E incontáveis abraços pela metade,
Nos arredores daquela cidade
Sob a égide do eterno e do espanto,
Encontraram os arqueólogos
Os esqueletos de um casal pré-histórico
Abraçados se amando...
Cristiano Siqueira
Desde que pela primeira vez
Girou a terra,
Eles vêm se amando...
Desde quando Deus
Nem era talvez,
Desde quando assoma
Ao sentimento
Os rudimentos do idioma.
De remotíssimos tempos
Antes mesmo da química orgânica
Eles vêm se amando...
Ninguém sabe precisar ao certo
Se do amor já havia exemplo
Ou se da infância
Eles próprios criaram
A pedagogia dos exemplos.
Doutores todos
Dos sábios aos tolos
Tentaram medir o porquê
De eles virem se amando...
E a cada vez frustrado um trabalho
Nos tubos de ensaio
Refletido o insucesso numérico dos cientistas
E o desejo homérico único
De amar daquele tanto!
Por estes dias onde grassam
Parcos amores dedicados
E incontáveis abraços pela metade,
Nos arredores daquela cidade
Sob a égide do eterno e do espanto,
Encontraram os arqueólogos
Os esqueletos de um casal pré-histórico
Abraçados se amando...
Cristiano Siqueira
(Ilustração de Aline Siqueira)

Amor mitológico
Artilharias ao resguardo
De meu ânimo,
Armei-me até os dentes
Espadas, escudos, armaduras
Belicismo inconseqüente.
Conjecturas de batalhas
Estratégias, rotas, cercos
Fissões atômicas
Mortalhas nucleares
Cogumelos de césio
Engano de radares.
Álgebra de guerra
Camuflagem
Rastejo no deserto, mangues.
Às margens do exangue
Miragem, tiros tredos
Arremedo de coragem.
E eis que abriram-se
Os céus de meu espanto,
Em meio a emboscadas de nuvens
Flechas embebidas em orvalhos de néctar
E um manto branco revolvido ao peito meu
Ó Vênus! Ó Marte!
Um cupido me venceu!
Cristiano Siqueira

Amor incontável
(...)
Foi preciso datar esse amor
com carbono-catorze pra saber
ao certo de quando ele não vinha.
Foi preciso o medo de sexta-feira treze
pra que a superstição o explicasse, com erro
de uma casa decimal, todo o bem desse amor.
Foi preciso doze Judas
a me delatar e dar jus
ao amor que vim.
Foi preciso potências de base onze,
todos os triângulos de Pascal e sequer
dar conta das qualidades desse amor.
Foi preciso combinar um e zero pelo tudo
e pelo nada desse amor, desde a graça do primeiro
murmúrio às linguagens sérias do computador.
Foi preciso a maior das unidades
pra que me fizesse das partes
um todo nesse amor.
Foi preciso esconder: oi tô aqui!
e o amor me chegasse mal-educado
invadindo os meus quartos e me pegando pelado.
Foi preciso mais que sete pecados
todos perdoados por eu ter amado
as capitais desse amor.
Foi preciso seis dias de morte e vida
na criação do que há entre o céu e a terra:
um amor que não descansa e ressuscita.
Foi preciso saliva, lágrima, suor,
cerume e coriza dos cinco sentidos
do amor nos meus sentidos.
Foi preciso tocar a quatro mãos
os movimentos do amor
na barriga de uma mãe.
Foi preciso o ponto, a reta e o plano,
a tridimensão do mundo
em amor de pai, filho e espírito santo.
Foi preciso apenas dois dedos de prosa,
antes de um beijo roubado de amor
envolto no medo de levar um fora.
Foi preciso um primeiro amor,
um último amor e uns meios amores
pra dar tudo um inteiro de amor.
Não! Não foi preciso nada
pra que eu te contasse de amor,
conte comigo, seja a conta que for!
Cristiano Siqueira
(...)
Foi preciso datar esse amor
com carbono-catorze pra saber
ao certo de quando ele não vinha.
Foi preciso o medo de sexta-feira treze
pra que a superstição o explicasse, com erro
de uma casa decimal, todo o bem desse amor.
Foi preciso doze Judas
a me delatar e dar jus
ao amor que vim.
Foi preciso potências de base onze,
todos os triângulos de Pascal e sequer
dar conta das qualidades desse amor.
Foi preciso combinar um e zero pelo tudo
e pelo nada desse amor, desde a graça do primeiro
murmúrio às linguagens sérias do computador.
Foi preciso a maior das unidades
pra que me fizesse das partes
um todo nesse amor.
Foi preciso esconder: oi tô aqui!
e o amor me chegasse mal-educado
invadindo os meus quartos e me pegando pelado.
Foi preciso mais que sete pecados
todos perdoados por eu ter amado
as capitais desse amor.
Foi preciso seis dias de morte e vida
na criação do que há entre o céu e a terra:
um amor que não descansa e ressuscita.
Foi preciso saliva, lágrima, suor,
cerume e coriza dos cinco sentidos
do amor nos meus sentidos.
Foi preciso tocar a quatro mãos
os movimentos do amor
na barriga de uma mãe.
Foi preciso o ponto, a reta e o plano,
a tridimensão do mundo
em amor de pai, filho e espírito santo.
Foi preciso apenas dois dedos de prosa,
antes de um beijo roubado de amor
envolto no medo de levar um fora.
Foi preciso um primeiro amor,
um último amor e uns meios amores
pra dar tudo um inteiro de amor.
Não! Não foi preciso nada
pra que eu te contasse de amor,
conte comigo, seja a conta que for!
Cristiano Siqueira
(Foto de Aline Siqueira)

Amor a si
Estou buscando minha forma
Mas quando n’alma a fronte orna
Tudo de repente se transforma.
Sou o que seria não fosse o que sou
De mim sou filho, pai, neto e avô
Mudo, fico: às vezes “e” às vezes “ou”.
Relendo o baú de meus escritos
Sinto vir dos mais remotos verbos idos
Algum remorso e a virtude em ter sido.
Desde muito não penso no futuro
Se o presente que se aclara inda é escuro
Amplio minha vida nos limites deste muro.
E tal como um poema clama por rima
Clamo minha mão por sobre a minha
E busco a retidão dessas esquinas.
Cristiano Siqueira
Estou buscando minha forma
Mas quando n’alma a fronte orna
Tudo de repente se transforma.
Sou o que seria não fosse o que sou
De mim sou filho, pai, neto e avô
Mudo, fico: às vezes “e” às vezes “ou”.
Relendo o baú de meus escritos
Sinto vir dos mais remotos verbos idos
Algum remorso e a virtude em ter sido.
Desde muito não penso no futuro
Se o presente que se aclara inda é escuro
Amplio minha vida nos limites deste muro.
E tal como um poema clama por rima
Clamo minha mão por sobre a minha
E busco a retidão dessas esquinas.
Cristiano Siqueira
(Ilustração de Aline Siqueira)
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